Esta sexta-feira (16), Dia Mundial da Alimentação, será marcada por ações de solidariedade e de protesto contra o aumento da fome em todo o Brasil. Na grande Curitiba, a mobilização será com distribuição gratuita de 3 mil marmitas e mil pães caseiros a pessoas em situação de vulnerabilidade que moram na comunidade Nova Esperança, em Campo Magro (PR).

A atividade é realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro-PR/SC), Movimento Popular por Moradia (MPM) e ação Marmitas da Terra, que envolve cerca de 100 voluntários na produção semanal de marmitas para doação.

As refeições serão produzidas na cozinha comunitária da ocupação e distribuídas em marmitas ao meio-dia desta sexta. Toda a ação levará em conta as orientações da Organização Mundial de Saúde para prevenção do novo coronavírus, como uso de máscara, higienização frequente das mãos e distanciamento físico.

Os ingredientes do cardápio virão de assentamentos e acampamentos do MST do estado, entre eles comunidades localizadas na Lapa, Castro, Ponta Grossa e Paula Freitas, na região sul do Paraná. Uma horta com plantas medicinais também será iniciada nesta sexta-feira, a partir de mudas doadas pelo assentamento Contestado, da Lapa.

Reflexos da crise econômica 

O aumento no número de famílias vivendo na ocupação Nova Esperança acompanhou o crescimento da crise econômica durante a pandemia. A área começou a ser ocupada no dia 22 de março por 400 famílias. Cerca de seis meses depois, a comunidade está com 1.200 famílias.

Comunidade Nova Esperança. Foto: Giorgia Prates

Valdecir Ferreira, morador da comunidade e integrante da coordenação do MPM, relata que se tornou rotina famílias chegarem por terem sido despejadas após não conseguirem mais arcar com o aluguel. “Tem casos de famílias que chegam aqui porque não tem mais pra onde ir. Ou fica aqui, ou vai morar na rua”.

De acordo com levantamento feito pela coordenação da comunidade, 1.650 crianças vivem no local. Imigrantes haitianos, venezuelano e cubanos também fazem parte da comunidade. A coleta e separação de materiais recicláveis tem sido uma das alternativas para geração de renda, e uma horta comunitária contribui para o complemento da alimentação.

Ocupação chama a atenção para a crise de moradia que se agravou com a chegada da pandemia de coronavírus. Foto: Giorgia Prates

“O que a gente espera é que essas ocupações, essas formas de protesto do povo reivindicando direitos à moradia, despertem os órgãos públicos pra essa demanda, que nem de longe está solucionada e que infelizmente está abandonada”, completa a liderança do MPM. O local que hoje garante moradia para milhares de pessoas estava sem uso desde 2009, mesmo assim as famílias vivem risco de despejo. A área pertence à prefeitura de Curitiba e desde que deixou de ser usada, foi cedida ao governo do Paraná.

Dados da fome

Em cinco anos, o número de pessoas sem acesso regular à alimentação aumentou em 3 milhões, chegando a 10,3 milhões de brasileiros. Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e se referem à pesquisa feita entre junho de 2017 e julho de 2018, e não inclui pessoas em situação de rua.

Somada à crise já enfrentada nos últimos 5 anos e que permanecia no início de 2020, a pandemia trouxe estimativa de aumentar em 5,4 milhões o número de pessoas em situação de extrema pobreza. O total pode chegar a 14,7 milhões até o fim de 2020, o que equivale a 7% da população do país, segundo estudos do Banco Mundial.

A fome no Brasil chegou a 10,3 milhões de pessoas, sendo 7,7 milhões de moradores na área urbana e 2,6 milhões na rural. Foto: Ednubia Ghisi

Em âmbito mundial, os números também são alarmantes. Dados do Programa Nacional de Alimentos das Nações Unidas apontam que 135 milhões de pessoas, em 55 países e territórios, venderam seus últimos bens para conseguir comprar comida ou já não tinham acesso a nenhum alimento, em 2019. O número de pessoas que enfrentam a insegurança alimentar aguda pode dobrar em 2020, com a pandemia da Covid-19, conforme estimativas do Programa.

A demanda por alimento tem sido percebida na prática pelo coletivo de voluntários da ação Marmitas da Terra, que distribui entre 700 e 1 mil marmitas toda quarta-feira em Curitiba e região metropolitana. O público principal das doações são pessoas em situação de rua do centro da capital e famílias moradoras de comunidades da periferia, entre elas a ocupação Nova Esperança.

“O público mudou bastante, eram pessoas em situação de rua e hoje vêm famílias inteiras, com crianças. É nesse momento de pandemia em que as pessoas têm mais dificuldade do alimento”, relata Celio Andrei Schmidt, integrante do MST que participa da ação Marmitas da Terra. Ao todo, 20.800 refeições foram distribuídas desde maio.

MST