A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) da qual é o representante para o Brasil, o Programa Mundial de Alimentos (PMA), venceu o Nobel da Paz. O prêmio foi anunciado na sexta-feira (09/10) na Noruega, pelo Comitê Nobel, em razão dos esforços da agência “para combater a fome, por sua contribuição para melhorar as condições de paz em áreas afetadas por conflitos e por atuar como uma força motriz em esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito”.

Foto: O Globo/reprodução

Em entrevista à BBC News Brasil por telefone, o economista Daniel Balaban diretor do Centro de Excelência contra a Fome e representante do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) no Brasil, afirma que a “luz amarela para fome no Brasil foi acesa” devido “à regressão das políticas sociais” e que será preciso agir rápido para evitar que o país volte ao Mapa da Fome, quando mais de 5% da população enfrenta insegurança alimentar grave.

“Dá para reverter esse quadro se houver união nacional. A própria população brasileira solicitando e fazendo pressão em cima dos entes públicos. E o Nobel foi muito importante para isso, pois lança luz sobre um problema que afeta o mundo e estava um pouco esquecido”, diz.

Questionado sobre se, em sua visão, o governo de Jair Bolsonaro está comprometido em “reverter esse quadro”, Balaban defende “demonstrar a importância a todos os formuladores de políticas públicas de orientar recursos para as populações mais vulneráveis”.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

                    BBC News Brasil  O Programa Mundial de Alimentos (PMA), agência da ONU da qual o sr. é o representante no Brasil, foi agraciado com o Nobel da Paz nesta sexta-feira. Como o sr. recebeu a notícia? Ficou surpreso?

Daniel Balaban – Foi uma surpresa total, ninguém esperava por isso. A sede do PMA fica em Roma (Itália) e, quando o prêmio foi anunciado, era madrugada no Brasil. Prêmios são prêmios. São importantes. Mas mais importante é lançar luz sobre um problema que afeta o mundo e que estava um pouco esquecido, que é a questão do combate à fome, do combate à pobreza, do combate às desigualdades.

Não tem como termos um planeta mais sustentável, um planeta que todos nós sonhamos com 690 milhões de pessoas passando fome. São três Brasis. O trabalho do PMA no dia a dia é fazer com que essas pessoas não morram e dar assistência a elas. Alimentamos por dia mais de 100 milhões em todo o mundo, especialmente nos países em desenvolvimento, os mais pobres, ajudando a criar políticas públicas. Trata-se de um trabalho muito difícil e complexo, mas precisamos mostrar à população que dá para resolver esse problema.

Balaban – O Brasil é parceiro do Programa Mundial de Alimentos desde longa data e tem uma atuação conjunta com a agência. Ganhamos muita notoriedade quando conseguimos tirar 50 milhões de pessoas da extrema pobreza e quando saímos do Mapa da Fome (em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff) por meio de políticas públicas que nós mesmos desenvolvemos. Digo sempre que essas são políticas de Estado.

O grande problema é que essas políticas têm que ser perenes, não importa quem esteja no governo. Continuamos sendo um país muito desigual e com uma parcela considerável da população em situação de vulnerabilidade. Não podemos deixar de comprometer parte do orçamento para políticas sociais que foram muito exitosas. O Brasil foi um exemplo para o mundo em desenvolvimento em relação a isso, desde políticas de apoio a agricultores familiares a políticas de renda com condicionalidade, como é o caso do Bolsa Família. E isso tem que continuar.

Balaban – O que acontece é que o Brasil começou a sofrer uma crise econômica muito grande a partir de 2015. Quando um país sofre uma crise econômica, há cortes no orçamento e pressão para se fazer equilíbrio fiscal. As políticas sociais acabaram sofrendo o maior impacto.

Não existe milagre.

Se os recursos começam a minguar, o programa social começa a diminuir seu fortalecimento e sua incidência sobre a população. Estamos em um momento chave: a luz amarela para a fome foi acesa, mas ainda temos tempo de fazer uma reversão. Não precisamos reinventar a roda. As políticas sociais que foram criadas tiveram muito sucesso.

Basta que os recursos voltem a ser investidos e o apoio às populações mais vulneráveis, retomado. Dá para reverter esse quadro se houver união nacional. A própria população brasileira solicitando e fazendo pressão em cima dos entes públicos. E o Nobel foi muito importante para chamar atenção para isso.

                      BBC News Brasil – Dados recentemente divulgados pelo IBGE mostram que, depois de recuar em mais da metade em uma década, a fome voltou a se alastrar pelo Brasil. Em cinco anos, o contingente nesta situação chegou a pelo menos 10,3 milhões. O Brasil voltou ou vai voltar ao Mapa da Fome?

Balaban – O Mapa da Fome é uma publicação da ONU que leva em conta os números mais atuais dos países. O Brasil não apareceu no último Mapa da Fome pois os dados usados são anteriores (aos divulgados pelo IBGE). De qualquer forma, essas 10,3 milhões de pessoas equivalem a menos de 5% da população, parâmetro considerado pela ONU para que um país entre ou deixe o Mapa da Fome. Mas isso não quer dizer que estamos bem. Temos percebido um aumento no número de pessoas em vulnerabilidade, uma regressão das políticas sociais. Se nada for feito para reverter esse quadro, o Brasil pode voltar ao Mapa da Fome.

BBC News Brasil – A concentração de renda subiu e a desigualdade se aprofundou durante o atual governo. O sr. acredita que o governo de Jair Bolsonaro está comprometido em “reverter esse quadro”?

Balaban – Não entramos em análises de governos, de atuação de governos. Acreditamos que essas políticas são reflexo do interesse da população de cada país. Cada governo é reflexo de sua população, sobretudo em países democráticos, como o Brasil. Precisamos alertar a toda a população que este é o momento de união e de trabalho conjunto para que esse quadro não volte. Este é o nosso papel: conclamar a união.

Não fazemos qualquer crítica a nenhum governo, nem governo atual, nem governos anteriores. Mas políticas adotadas como todo. Acredito que todos os governos têm boas intenções, nenhum governo quer a fome, nenhum governo quer falta de saúde e educação. O ponto crucial é demonstrar a importância a todos os formuladores de políticas públicas de orientar os recursos para as populações mais vulneráveis.

Campanha de solidariedade

Com o início do isolamento social provocado pela pandemia, os movimentos sociais, formados por trabalhadores, militantes, estudantes e ativistas de todas as áreas e idades, se organizaram para realizar doações de alimentos para os que se encontraram mais vulneráveis pela falta de trabalho e renda. Nesse sentido, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, criaram uma campanha nacional de solidariedade para reunir essas ações. Desde abril, a campanha Vamos Precisar de Todo Mundo já arrecadou e doou mais de 4 mil toneladas de alimentos e insumos, como material de limpeza e higiene, álcool em gel e máscaras.

Essas ações ainda persistem, os movimentos sociais continuam a arrecadas e doar alimentos nas periferias e centros urbanos. Outras campanhas surgiram, como a Rede Periferia Viva, que organiza diversas ações, de cursos a doações, do plantio de hortas comunitárias a formação do Agentes Populares de Saúde, como forma de engajamento das comunidades em seus territórios.

Enquanto a oposição enfrenta o governo para manter a renda emergencial de R$ 600 até dezembro, Bolsonaro paga a metade, sem levar em consideração o preço dos alimentos e as dificuldades de gerar renda durante a pandemia, contribuindo, dessa forma, com o aumento da fome e da pobreza extrema no Brasil.

Dados do IBGE revelam que, desde 2017, primeiro ano do golpe no governo de Dilma Roussef, o país vem apresentando alta nos índices de miséria e fome. De lá para cá, é só ladeira abaixo. Voltar ao mapa da fome é ums triste realidade para um país que esteve, há tão pouco tempo, no topo de seu florescimento.

Fonte: BBC News

Edição: todomundo.org