Maria Marlúcia de Souza tem 37 anos, sete filhos e um futuro nebuloso pela frente. Nos últimos meses, em meio à crise intensa causada pelo coronavírus, ela viveu um alento: o auxílio emergencial colocou carne na mesa da família. No entanto, enquanto o Governo segue mergulhado nas incertezas que rondam o futuro do novo Bolsa Família, ela tem outra preocupação: o medo da fome. “Ô meu Deus, como é que vai ser a nossa vida no ano que vem? Logo agora que tava melhorando”, lamenta, enquanto lava roupa na casa onde mora com mais oito pessoas, na periferia de Fortaleza, no Ceará.

Marlúcia é um exemplo da angústia vivida por milhões de brasileiros diante do fim previsto dos pagamentos do benefício, em dezembro. De acordo com a pesquisa Pnad Covid do IBGE, o auxílio emergencial chega a 29,4 milhões de lares – o equivalente a 43% dos domicílios dos país. Nos Estados mais carentes, no Norte e Nordeste, o percentual é ainda maior, ultrapassando os 45%.  Marlúcia engravidou pela primeira vez aos 14 anos, depois de se apaixonar por um rapaz do bairro. Cursava o sexto ano do ensino fundamental quando deixou a escola para cuidar da criança. Nunca voltou.

Começou a trabalhar com a mãe, Maria Rosimar de Souza, rodando as ruas e as sucatas da capital cearense para catar e vender objetos recicláveis. Nos anos seguintes, teve outros seis filhos e um câncer no útero que ainda lhe obriga a fazer revisões frequentes em hospitais públicos. Marlúcia nunca casou. Acolhida pela mãe, ela se dedicou a trabalhar na reciclagem e na venda de lanches que fazia em casa e saía vendendo pelas ruas. Os dois filhos mais velhos saíram de casa e agora ela mora com a mãe e seis filhos ― se contar também o sobrinho que adotou, quando seu irmão foi assassinado. Antes da pandemia, nove pessoas viviam na casa de Rosimar ―um imóvel muito simples deixado de herança pelo marido, com dois pequenos quartos, um vão na entrada, um banheiro improvisado debaixo da escada e uma cozinha.

A família inteira se mantinha com uma renda mensal que raramente excedia 700 reais, juntando o Bolsa Família das crianças e o dinheiro da reciclagem e da venda de lanches. As crianças estavam todas na escola (com exceção da caçula, que frequenta uma creche pública e ainda não está incluída no Bolsa Família), e parte da alimentação delas vinha da merenda escolar.