Devido à elevação do preço dos alimentos, as famílias de menor renda enfrentaram carestia duas vezes maior, nos últimos 12 meses, do que as mais ricas, por conta da cesta de consumo

A inflação dos mais pobres superou em duas vezes a dos mais ricos nos últimos 12 meses. É o que revela o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda, elaborados com base nos dados sobre hábitos de consumo disponibilizados pelo Sistema Nacional de Índice de Preços ao Consumidor (SNIPC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Somente em agosto, segundo o indicador, a inflação para famílias de renda muito baixa — assim consideradas as que têm renda mensal menor do que R$ 1.650,50 — foi de 0,38%. No entanto, a carestia para a faixa de renda média-alta (entre R$ 8.254,83 e R$ 16.509,66) foi de apenas 0,13%, registrando queda de 0,10% para as famílias de renda alta.

José Luís Oreiro, professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), explica que a diferença entre a inflação de ricos e pobres deve-se à composição de consumo de cada um desses grupos. “A classe de menor renda tem uma proporção maior de alimentos em sua base de consumo, ou seja, gasta maior parte da renda com esses produtos, enquanto os mais ricos têm uma proporção maior de serviços.” Desse modo, a recente alta no preço dos alimentos teve maior impacto na população de baixa renda.

Impacto

Oreiro chamou a atenção para o grande impacto no preço do arroz no orçamento das famílias. “O aumento do arroz no mercado internacional aconteceu porque os grandes fornecedores do alimento, Índia e Vietnã, por questões de segurança, restringiram as exportações do produto”, observou. Enquanto a inflação dos mais pobres cresce, os ricos, que consomem em maior parte serviços, possuem o benefício da deflação em alguns setores, ou seja, da queda de seus preços, o que colaborou para a percepção da classe mais pobre sofrer uma inflação maior.

Solidariedade

Os pobres estão sendo afetados pela crise econômica em diversos aspectos. Desde a alta nos preços dos alimentos, até a falta de vagas no mercado de trabalho, é nas famílias de baixa renda que a crise provocada pela gestão desastrosa do governo Bolsonaro no combate à pandemia é mais eloquente.

Apesar da renda básica de R$ 600, projeto da oposição no Congresso, ter garantido sustento de milhares de trabalhadores que ficaram sem recursos durante o isolamento social, as dificuldades, para muitos, de acesso aos cadastros do governo para receber o benefício, provocou sofrimento e fome.

Desde o início do isolamento social, os movimentos sociais desenvolveram iniciativas para arrecadar recursos e alimentos a serem doados para os mais vulneráveis. As Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo encamparam essas ações e criaram a campanha de solidariedade Vamos Precisar de Todo Mundo, para abrigar as diversas mobilizações solidárias. Desde abril, mais de 4 mil toneladas de alimentos e insumos foram arrecadados e distribuídos.

Além da campanha de arrecadação de alimentos, as Frentes populares também estão com a campanha permanente pelo Fora Bolsonaro, Taxar Fortunas para Salvar Vidas e a Plataforma Para o Enfrentamento da Pandemia e da Crise Brasileira, que propõe alternativas nas áreas energética, econômica, habitacional, entre outras, de forma que o impacto econômico sobre os mais vulneráveis seja menor.

A alta nos preços dos alimentos básicos dos brasileiros, como óleo, feijão e arroz só demonstram que as campanhas das Frentes estão com foco acertado: é preciso um novo projeto de governo para o Brasil, que leve em consideração a realidade da maioria da população. ‘O povo quer comprar comida’, disse o ex presidente Lula em pronunciamento nacional no dia 7 de setembro.

Nunca antes na história desse país, essa afirmação foi tão definitiva.

Com Correio Braziliense