Aliado ao fim do auxílio emergencial, aumento dos preços pode fazer com que Brasil volte ao Mapa da Fome. Provocada pela alta do dólar e da demanda, inflação dos alimentos deve continuar pelos próximos meses

Para quem gasta tudo ou quase tudo que ganha com comida, não há como escapar da inflação dos alimentos: é preciso deixar de comer ou substituir comida nutritiva por ultraprocessados.

O benefício de R$ 600 reais, proposta dos partidos de oposição no Congresso, começou a ser pago em abril para um período inicial de três meses. No início de setembro, o governo prorrogou a transferência por mais quatro meses, reduzindo a parcela mensal a 300 reais. A última parcela será paga em dezembro.

A inflação dos alimentos no país, provocada pela política desastrosa de Bolsonaro, que não se preocupou com a demanda interna frente à alta do dólar, permitindo que o agronegócio venda  toda a produção para o exterior, desabastecendo o mercado interno, deve continuar pelos próximos meses, segundo economistas, e tende a agravar o quadro de fome no Brasil.

“Mesmo com o auxílio emergencial, estamos prevendo que o Brasil esteja voltando para o Mapa da Fome”, afirma a antropóloga Maria Emilia Pacheco, ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e membro do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN).

Recentemente, Bolsonaro apelou para que empresários sejam ‘patriotas’ e não repassem aumentos para a cesta básica, virando mais um vez, motivo de chacota. Ronaldo Santos, presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS), disse durante encontro do setor, que não deve haver qualquer tipo de tabelamento de preço e, se isso acontecer, existe a possibilidade do desabastecimento.

Movimentos populares lançam ações de combate à fome na pandemia

Logo no início do isolamento social causado pelo Covid 19, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo lançaram, juntas, a campanha nacional de solidariedade ao povo brasileiro Vamos Precisar de Todo Mundo, cujo objetivo é organizar e dar visibilidade às diversas ações solidárias desenvolvidas pelos movimentos populares, sindical, estudantil e entidades da sociedade civil, em todo o país. Desde 7 de abril, a campanha já arrecadou e doou mais de 4 mil toneladas de alimentos e produtos de higiene, álcool em gel e máscaras.

Experiências bem sucedidas surgiram dessas iniciativas de solidariedade, como as cozinhas comunitárias que, por meio de muita organização e trabalho, reúnem voluntários para preparar alimentos frescos e distribuir para as populações mais vulneráveis, como as que vivem em situação de rua e outras em extrema pobreza nas periferias das grandes cidades e até no interior. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) tem absoluto destaque nessas ações, pois doa os produtos agroecológicos produzidos nos assentamentos e pela agricultura familiar, para o preparo das marmitas. O MST já doou 3400 toneladas de alimentos agroecológicos durante a pandemia.

Cozinhas comunitárias preparam alimentos para doar às populações mais vulneráveis. MST é protagonista nessas ações

Dentro dos objetivos da campanha Vamos Precisar de Todo Mundo, as Frentes apresentaram, também, a Plataforma Emergencial para Enfrentamento da Pandemia do Coronavírus e da Crise Brasileira, com 60 propostas voltadas para minimizar o sofrimento dos que se encontram mais vulnerabilizados pela escassez de renda.

Os movimentos populares denunciam que o governo Bolsonaro não assumiu medidas eficazes contra a propagação do coronavírus no Brasil, tornando-se a principal ameaça para a segurança e bem-estar da população brasileira.

Movimentos sociais lançam campanha para taxar grandes fortunas

As organizações também pautam medidas para diminuir as consequências da atual crise econômica e sanitária, uma vez que o próprio presidente atua contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Taxação de grandes fortunas

Outra iniciativa das Frentes é a campanha ‘Taxar fortunas para salvar vidas’, que propõe a taxação dos lucros sobre dividendos dos super- ricos no Brasil. Atualmente, a legislação é a mesma para os milionários e os pobres, com a cobrança do imposto sobre consumo e não, sobre a riqueza acumulada. Um dispositivo criado no governo de Fernando Henrique Cardoso que persiste, fazendo do Brasil um paraíso para quem quer acumular sem pagar mais por isso, causando o imenso abismo social que, na pandemia, ficou ainda mais evidenciado.

Mapa da Fome

A fome invisível dos excluídos

No Brasil, a estimativa é de que cerca de 5,4 milhões de pessoas – a população da Noruega – passem para a extrema pobreza em razão da pandemia. O total chegaria a quase 14,7 milhões até o fim de 2020, ou 7% da população, segundo estudos do Banco Mundial.

“O Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, mas está caminhando a passos largos para voltar”, disse o economista Daniel Balaban, chefe do escritório brasileiro do Programa Mundial de Alimentos (WFP, na sigla em inglês), a maior agência humanitária da ONU.

A expressão ‘Mapa da Fome’ surgiu com Josué de Castro, médico que, em 1946 detectou que a fome no Brasil tem várias faces e territórios, razão que deu o título a seu livro “Geografia da Fome”. Na obra, aclamada no mundo e no Brasil, Castro esmiúça a fome por regiões, diferenciando-a da fome provocada pelo frio europeu ou pelo nazismo, que levou a Europa a seu mais triste episódio.

Aqui, segundo Castro, a fome no nordeste e a fome no sudeste são diferentes. Num, a escassez é tanta que impede até mesmo as pessoas fugirem dela. Noutro, há mais oferta de alimentos, mas a alimentação dos pobres é fraca e pouco diversificada, levando à fome pela desnutrição. Essas observações o fizeram caracterizar a fome no Brasil como endêmica, inaugurando essa expressão.

Josué, que mais tarde descobriu que a fome é uma questão de política, foi eleito deputado federal duas vezes pelo PTB. Em 1964, com a ditadura militar, teve seu mandato cassado e se exilou na França, onde viveu o resto de sua vida. Desse período e com sarcasmo, recebeu a alcunha de Josué da Fome. O que era para ser uma ofensa, o tornou ainda mais aclamado.

No exílio escreveu seu único romance: Homens e Caranguejos, um pequeno livro sobre a vida nos manguezais do Recife. Nele, Castro mostra como percebeu o problema da fome. Num relato mais direto, mostra como lutam para sobreviver os moradores dessas áreas, que têm no animal a grande fonte de proteínas, mas, como eles, são “filhos da lama”.

Em 1995, o cineasta brasileiro Silvio Tendler lança o documentário Cidadão do Mundo, sobre a vida e a obra de Castro, onde personalidades como Milton Santos e Betinho relatam a importância de seu trabalho, lembrando que sua vida e a fina percepção da realidade brasileira não foram em vão.

todomundo.org

Com informações de Unisinos, Exame, CUT e Outras Palavras