Quem já precisou um dia sabe da importância de receber um quilo de alimento. Com base neste princípio de retribuição e no compromisso com a solidariedade como um valor que define a humanidade, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) vem realizando, em todo o Brasil, desde a chegada da pandemia do novo coronavírus, uma série de doações de alimentos e outras ações de solidariedade em comunidades pobres de periferias de pequenas, médias e grandes cidades. Em todo o país, o MST estima que já doou mais de 3.100 toneladas de alimentos oriundos de suas produções. No Rio Grande do Sul, a direção estadual do MST estima que já foram doadas mais de 200 toneladas de alimentos, além de móveis e brinquedos.

As doações de alimentos, enfatizam os dirigentes do MST, não são um gesto de caridade, mas sim expressão de uma solidariedade ativa dos trabalhadores do campo para com os trabalhadores da cidade em um momento de grave crise. Em um painel que debateu a crise da democracia brasileira, com a presença, entre outros, do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, do jurista Celso Bandeira de Mello e do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, João Pedro Stédile definiu assim o significado político e social da decisão tomada pelo MST de prestar solidariedade ativa aos moradores das periferias de cidades brasileiras:

“Vocês viram algum caminhão, de alguma fazenda do agronegócio, chegando em alguma periferia para entregar alimentos? Eles não podem fazer isso: não produzem alimentos, só produzem lucro. Só produzem commodities para exportação… Eles estão mais preocupados com a China do que seus vizinhos pobres de Paraisópolis (comunidade de trabalhadores vizinha ao bairro do Morumbi, em São Paulo)”.

Segundo levantamento do MST, somente no Rio Grande do Sul, até o dia 18 de agosto, já foram entregues 1.899 cestas básicas de alimentos, 3.800 litros de leite, 603 móveis e vários brinquedos. Em Porto Alegre, já foram entregues 38 toneladas de alimentos distribuídos em 1.290 cestas básicas, para moradores de bairros de periferia da capital gaúcha. Em Passo Fundo, foram outras 15,8 toneladas de alimentos. Em Jóia, 8 toneladas. Em Pelotas, uma tonelada e 1.000 litros de leite. A lista de municípios beneficiados nesta campanha se estende: Manoel Viana (meia tonelada), Viamão (7,8 toneladas), Bagé (mais de duas toneladas), Livramento (2,2 toneladas e 300 litros de leite), regiões da Campanha e Metade Sul (cestas básicas para 1.400 famílias), Tapes (34 cestas), São Gabriel (400 kg), Missões (400 kg), Veranópolis (603 móveis e vários brinquedos).

Missão histórica e compromisso

Geronimo da Silva, dirigente estadual do MST/RS, explica o que levou o movimento a tomar a decisão de iniciar essa campanha de apoio a comunidades pobres de periferias urbanas. O Movimento Sem Terra, destaca, tem uma missão histórica que é produzir alimento e também preservar a natureza. “Quando falamos em produzir alimentos estamos falando de alimentos saudáveis, ou seja, alimentos orgânicos, sem veneno, produzido por famílias trabalhando de modo cooperado. Desde o seu nascimento, o MST contou com a solidariedade de muitas pessoas e de muitas entidades, de igrejas, sindicatos e muitas outras organizações. Por isso, hoje, temos o dever histórico de ajudar os trabalhadores da periferia. Se a nossa missão histórica é produzir alimentos, nos toca, além de produzir esse alimento, também disponibilizá-lo neste momento para quem precisa. Quem já precisou um dia sabe a importância de receber um quilo de alimento, sobretudo um alimento saudável”, resume Geronimo.

Essas ações, destaca o dirigente do MST/RS são expressão de uma solidariedade ativa. “Não é uma solidariedade da classe dominante, que está relacionada à caridade ou a oportunismo mesmo. Nós falamos de uma solidariedade ativa, uma ação de trabalhador para trabalhador. É o trabalhador do campo disponibilizando o alimento para o trabalhador da cidade. É importante destacar que essa é uma decisão política do nosso movimento, de assumir esse compromisso com os trabalhadores da periferia neste momento em que mais precisam de apoio. É por isso que estamos fazendo essas doações”.

Kit com alimentos produzidos por assentados gaúchos. Foto: Maiara Rauber

Os alimentos doados não são fruto de um excedente de produção dos assentamentos do MST, mas sim resultado de uma decisão política de expressar uma solidariedade ativa aos trabalhadores da cidade. “Tomamos essa decisão e criamos um grupo operacional que gerencia todo o trabalho para fazer com que esse alimento chegue nos trabalhadores que precisam dele. Essa solidariedade ativa é organizada pela Plataforma do Periferia Viva, uma articulação entre movimentos sociais populares que faz desde o cadastramento do pessoal nos bairros e associações comunitárias até a distribuição do alimento, seguindo sempre as orientações do Ministério da Saúde sobre distanciamento e uso de máscaras para se proteger do contágio do coronavírus. Os alimentos também são entregues na melhor forma de higienização possível”, relata ainda Geronimo

Esses alimentos vêm, sobretudo, de duas fontes, explica. “Eles vêm direto dos nossos assentamentos, que produzem mandioca, batata, mel, banha, carne, leite e vários outros produtos. Em segundo lugar, vêm das nossas cooperativas que fazem doações de produtos já industrializados, como arroz, mel, leite em pó, sucos e assim por diante”.

Desmonte de políticas para a produção de alimentos

O fato de as doações não serem resultado de um excedente de produção não é um detalhe menor, considerando que os assentamentos e acampamentos do MST vivem hoje uma situação de extrema adversidade com o desmonte de políticas de apoio à Reforma Agrária e à agricultura familiar, tanto em nível federal quanto em nível estadual.

“O governo Bolsonaro tem um descaso total com a agricultura camponesa e todos os recursos foram cortados. Aqui no Rio Grande do Sul, nós sofremos uma grande seca no último período e o governo Eduardo Leite não fez nada para ajudar os trabalhadores do campo. O governador, inclusive, foi contra a própria legislação, pois a compra de alimentos para as escolas deveria ser no mínimo 30% oriunda da agricultura familiar e camponesa. Eduardo Leite descumpriu essa lei fazendo somente compras de atacados, de mais de R$ 25 milhões”, assinala Geronimo da Silva. Apesar dos prejuízos com a seca e o desmonte de políticas públicas para a produção de alimentos, ele garante que o MST manterá essa política de doação de alimentos e de solidariedade ativa com comunidades da periferia das cidades.

Neste período de pandemia, Geronimo acredita que deve estar cada vez mais presente esse grau de solidariedade e humanidade para que se consiga superar a crise. Além disso, defende, a situação atual também reforça a necessidade de uma Reforma Agrária Popular. “Neste período da pandemia, a gente percebe quem produz alimentos de verdade. O agronegócio não leva alimentos para a mesa dos trabalhadores, só produz commodities. Quem produz alimentos de verdade é a agricultura camponesa e familiar. E, para que isso continue acontecendo, precisamos de uma Reforma Agrária Popular, para seguirmos produzindo alimento saudável, sem veneno, de uma forma cooperada e com base familiar”.

O IEJC está se mudando para o Assentamento Sepé Tiarajú, em Viamão. Obra do novo espaço da escola. (Foto: Maiara Rauber)

Doação de móveis do Instituto de Educação Josué de Castro

O mais recente capítulo desse movimento de solidariedade promovido pelo MST é a doação de mais de 600 móveis da antiga instalação do Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), que estava localizada no município de Veranópolis, na Serra Gaúcha. Os mais de 600 móveis e brinquedos, foram entregues a instituições, organizações, associações de moradores, creches, escolas, cursos populares e pessoas individuais.

O MST decidiu deslocar as instalações do Instituto Josué de Castro para a Região Metropolitana de Porto Alegre, em função do fato de a maior parte das experiências em cooperação do Movimento estar concentrada neste território. “A ideia é aproximar o curso dessas cooperativas e desse potencial de formação humana”, diz Miguel Stédile, coordenador do Instituto e dirigente estadual do MST/RS. A construção da nova escola, no Assentamento Filhos de Sepé, localizado no município de Viamão, está sendo viabilizada à base de ajuda social de cooperação, envolvendo organizações nacionais e internacionais.

No novo espaço do IEJC, estarão disponíveis salas de aulas, biblioteca, secretária, laboratório, sala de informática entre outros, para a formação de filhos de assentados, indígenas, quilombolas entre outras organizações. Em 2020, o Instituto Josué de Castro completa 27 anos de vida. “Ele nasceu com a tarefa de fazer a escolarização, e permitir o acesso dos camponeses, em especial no ensino médio, mas também educação de jovens e adultos e a formação técnica”, lembra Stédile. Atualmente, o principal curso ministrado na escola é o curso Técnico em Cooperativismo, que deu origem à escola. Desde o seu início, já são 16 turmas voltadas ao cooperativismo concluídas e uma em andamento, que está com as aulas suspensa devido à pandemia do novo coronavírus.

Sul 21