Desta vez, o despejo aconteceu na capital paulista e deixou 180 famílias sem casa durante a pandemia

Com uma ordem de reintegração de posse requerida pela empresa Ecovias, a polícia militar de João Doria agiu de forma truculenta com os que estão em situação de vulnerabilidade durante o isolamento social. Mais um despejo aconteceu na manhã desta terça-feira (18), deixando 180 famílias sem ter onde morar, desta vez em em Diadema, no ABC Paulista. Elas ocuparam área pública embaixo da Rodovia dos Imigrantes, em junho, após sofrerem com os impactos econômicos negativos da pandemia. O terreno pertence ao governo do estado e está sob concessão da Ecovias.

Os ocupantes foram retirados dos barracos por volta das 8 horas da manhã. Logo após, um incêndio começou no conglomerado. Segundo a Polícia Militar, ninguém ficou ferido. Foi necessária a assistência do Corpo de Bombeiros para realizar a contenção das chamas.

A desigualdade social no Brasil foi agravada pela pandemia. De acordo com o IBGE, quase 13 milhões de pessoas se encontram desempregadas em todo o país. Nas últimas 7 semanas, o número de desocupados cresceu em 26%.

Por nota, o Governo de São Paulo afirmou que a Ecovias é responsável pelo pedido de reintegração e de toda a operação. Já a concessionária afirmou que reuniões com as famílias foram realizadas antes da ação e que não é responsável por políticas assistenciais aos cidadãos.

Barracos pegam fogo durante reintegração de posse em Diadema — Foto: Reprodução/TV Globo
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Despejo durante a pandemia – As famílias que ocuparam o terreno contam que tentaram recorrer da decisão, mas não tiveram tempo de acionar a Defensoria Pública. Conforme depoimentos dados à imprensa, elas disseram que não houve tempo sequer de recolher todos os pertences. “Ficou cama, os documentos da minha filha, geladeira, tudo… ficou tudo”, contou Ana Carolina Gomes, moradora desempregada do terreno.

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PM acompanha reintegração de posse em terreno do governo estadual em Diadema — Foto: Walace Lara/TV Globo

Em nota, a Ecovias disse que as famílias foram comunicadas há 15 dias sobre a reintegração de posse por meio de um oficial de justiça, e por outros dois encontros, mas reconheceu que não havia definido a data da ação.

“Sou músico profissional, mas, com o Covid, 70% da minha renda foi embora. Evento, casamento… Por isso a gente teve que ocupar este espaço, que estava sem utilidade”, disse Misael Marcelino, que está desempregado.

Enquanto isso, a Prefeitura de Diadema e o governo do estado não chegaram a um consenso sobre quem deve oferecer assistência às famílias.

Assista à reportagem da TV Cultura:
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Relator de moradia da ONU pede que Brasil pare com despejos e remoções –
No início de julho, o relator especial sobre moradia da Organização das Nações Unidas (ONU), Balakrishnan Rajagopal, emitiu manifestação em que pede que o Brasil cesse com os despejos e remoções enquanto a pandemia do coronavírus perdurar.

Segundo denúncia da organização Terra de Direitos e do Laboratório de Pesquisa Interinstitucional da UFRJ, UFPR e Unifesp (Labá), enviada à ONU, o Brasil não apresenta medidas que garantam a não realização de despejos e remoções de famílias.

MTST – No dia 13 de julho, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de São Paulo, realizou a 2ª Marcha Contra os Despejos e Pela Moradia. Após o evento, o movimento comemorou algumas vitórias para as famílias que lutam por moradia na capital. A Secretaria de Habitação do governo paulista se comprometeu a tentar mediar despejos em áreas privadas no âmbito do Gaorp, o grupo de trabalho que trata do tema no Tribunal de Justiça de São Paulo. Além disso, o Governo do Estado se comprometeu a retomar a liberação de recurso para projetos habitacionais destinados a famílias carentes de baixa renda.
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Reintegração de posse em terreno sob concessão da Ecovias em Diadema — Foto: Walace Lara/TV Globo.

A violência da polícia é o padrão em despejos durante a pandemia – No dia 14 de agosto, outro despejo violento chamou a atenção do Brasil e do mundo. A polícia militar de Minas Gerais agiu de forma brutal contra as famílias do Acampamento Quilombo Grande, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), no município de Campo do Meio, sul do estado. São 450 famílias que, há 22 anos, vivem e produzem no local onde funcionava a antiga usina Ariadnópolis. Após três dias de muita resistência, destruição da escola e do barracão da cooperativa dos acampados, o despejo terminou com 14 famílias sendo desalojadas de suas casas.

Houve protestos e manifestações de apoio ao MST, no Brasil e no mundo contra a ação da polícia de Minas, causando revolta na sociedade pela brutalidade com que os governos vem tratando a questão da moradia durante a pandemia.

Campanha Despejo Zero – No dia 23 de julho, as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, juntamente a mais de 40 organizações sociais, lançaram a ‘Campanha Despejo Zero – Pela Vida no Campo e na Cidade‘, em reação à continuidade de retirada de famílias de seus lares durante a pandemia do coronavírus.

A campanha pede a suspensão dos processos de despejos e remoções, independentemente de terem origem na iniciativa privada ou no poder público. A ação propõe que, durante a crise causada pelo vírus, ficariam impedidos até mesmo processos respaldados por decisão judicial ou administrativa.

todomundo.org com informações do G1 e Brasil de Fato
Fotos: G1