No dia 19 de abril de 2018, nasceu em São Sebastião, cidade que fica pouco mais de 20 quilômetros de distância da capital federal, o acampamento Marielle Franco. Em janeiro deste ano, os acampados passaram por uma reintegração de posse. Dois meses depois, foi decretada a pandemia do novo coronavírus, e os moradores tiveram que enfrentar também o vírus que já matou mais de 92 mil pessoas em todo Brasil. Valentes, assim como Marielle Franco, as 51 famílias do acampamento não se deram por vencidas. Com a solidariedade de organizações da sociedade civil, como a Rede de Solidariedade do DF, eles vêm se reerguendo, mirando em um futuro mais justo.

“A gente ficava em uma área grande, onde a gente podia produzir, podia criar; tinha espaço para as crianças brincarem. Mas depois da reintegração de posse, a gente foi obrigado a parar de produzir e de criar nossos animais. Além disso, a gente fica numa área muito pequena: são 51 famílias em menos de dois hectares”, conta a coordenadora do acampamento Marielle franco, Janaína.

Janaína diz que a reintegração de posse somada à pandemia se configurou em um grande desafio para os acampados. “Já estávamos desgastados fisicamente, financeiramente e mentalmente. Foi tudo um trauma pra gente. A gente mora em barraco de madeira, que não é muito resistente. Então, quando passamos pela reintegração de posse, tivemos que nos virar para construir de novo nossos barracos, porque não se aproveita quase nada desses barracos. Tivemos um mês para começar a caminhar e em março veio a pandemia”, conta.

Janaína (à esquerda) e Hellen Frida organizam lanches doados para as crianças do acampamento Marielle Franco.

Impossibilitadas de produzir seu próprio sustento, as 51 famílias do acampamento Marielle Franco foram deixadas a própria sorte. “Hoje, era para estarmos em uma posição de ajudar o próximo com alimentos, pois tínhamos fartura de produção. Mas infelizmente a gente está em uma situação de ser ajudado. Não porque a gente quer, mas porque estamos sem espaço, e as famílias que tinham empregos, que faziam diária, por exemplo, também ficaram sem emprego. Então, estamos nos virando como podemos dentro do acampamento, com doações, a partir da solidariedade”, afirma a coordenadora do acampamento.

Mesmo com todas as dificuldades, a unidade entre os assentados persiste. Construída a muitas mãos, um escolinha no meio do acampamento recebe as crianças que moram ali. No chão de terra batido, foi levantado um galpão aberto. Com quadro negro e cadeiras doadas, a professora Elizangela dá às crianças lições que vão além de matemática e português. Ali no espaço improvisado, são ensinadas lições de superação, de solidariedade e de luta social.

No último dia 31 de julho, integrantes da Rede de Solidariedade do DF levaram mais esperança para o acampamento Marielle Franco. A partir de doações de diversos setores, foram entregues aos assentados 10 computadores, que foram dispostos na escolinha lado a lado, com divisórias, sobre estrutura de madeira construída pelos próprios acampados. Junto com os equipamentos, foram doados lanches para as crianças, máscaras, roupas, sapatos e cestas básicas.

Computadores doados ao acampamento Marielle Franco foram colocados na escola construída no espaço. A estrutura foi construída pelos próprios acampados.

“Os lanches foram doados pelo Cine Cultura do Liberty Mall. A ilha de computadores foi possibilitada pela deputada Erika Kokay e pelo pessoal da Estação Metareciclagem. As cestas foram doadas pelo Sindicato dos Bancários de Brasília. A Rede de Solidariedade fez uma grande articulação pra possibilitar tudo isso”, afirma uma das coordenadoras da Rede de Solidariedade do DF, Hellen Frida.

Janaína Elisiario conta que a chegada das doações “mudaram o clima do acampamento”. “Quando chega alguém e ainda chega com uma doação, como a Rede, aí já muda tudo. Não é só pelo alimento, é a ação. Somos muito gratos à Rede de Solidariedade. As crianças ficam muito felizes, querem participar, ajudar a descer os alimentos”, diz.

Sem auxílio
Além de terem passado por uma reintegração de posse e, um mês depois, viverem tempos ainda mais difíceis com a pandemia do novo coronavírus, moradores do acampamento Marielle Franco vêm tendo dificuldades de acessar os auxílios viabilizados tanto pelo governo do DF como pelo governo federal.

“No acampamento temos famílias que não conseguiram ter acesso ao auxílio emergencial e nem ao cartão Prato Cheio (auxílio do governo do DF) porque têm problema no CPF ou no título de eleitor. Mas não é porque você tem um problema no CPF ou no título que você não pode comer. Tem que comer tendo problema ou não tendo problema”, protesta a coordenadora do acampamento Marielle Franco.

“Não é porque você tem um problema no CPF ou no título que você não pode comer. Tem que comer tendo problema ou não tendo problema”

Segundo ela, só no acampamento, pelo menos 10 pessoas solicitaram os auxílios, mas não puderam acessá-los. Além dos problemas com CPF e título de eleitor, muitos deles não têm acesso a celulares e, consequentemente, aos aplicativos usados para solicitar os benefícios.

Em artigo publicado no dia 20 de julho, Cristiane Pereira, uma das coordenadoras da Rede de Solidariedade, lembra que cerca de 10 milhões de pessoas que solicitaram o auxílio emergencial ainda não tiveram resposta, e que a solicitação do benefício via aplicativo tem implicações graves.

“De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Tecnologia da Informação e Comunicação (Pnad Contínua TIC) 2018, 46 milhões de brasileiros não acessam a Internet. Desse grupo, 41,6% das pessoas afirmou não ter acesso à rede porque não sabe usar. Outros 11,8% afirmaram que o serviço de acesso à internet é caro, e para 5,7%, o equipamento necessário para acessar a internet, como celular, por exemplo, é financeiramente inviável. Ainda segundo a pesquisa, o índice de pessoas sem acesso à internet é maior na área rural. Ou seja, em outras linhas, os números do estudo também mostram que as pessoas que estão excluídas do acesso à rede são as mais pobres, acometidas pelo analfabetismo, pelas limitações de conhecimento tecnológico por não terem acesso à educação, e que muitas vezes não têm como custear sequer alimentação para o seu sustento e o de sua família, diga lá pagar um pacote para acessar a internet. São justamente as mesmas pessoas que solicitam o auxílio emergencial”, diz em trecho do artigo.

Por toda parte
As dificuldades ampliadas com a chegada da pandemia do novo coronavírus e a ausência de políticas públicas é uma realidade que atinge todo Distrito Federal. A pouco menos de 40 quilômetros do acampamento Marielle Franco, famílias inteiras do Sol Nascente, na Ceilândia, também sobrevivem da solidariedade de organizações sociais.

Entrega no Sol Nascente

Evilene, de 36 anos, foi uma das assistidas pela Rede de Solidariedade do DF. Mãe de cinco filhos, com idades que vão de dois a 15 anos, ela vive com o esposo, que é ajudante de pedreiro e “faz alguns bicos quando pinta alguma coisa”. “Está sendo difícil pela falta de serviço pra gente. Eu não estou empregada e meu esposo só trabalha quando acha bico. E nosso auxílio (auxílio emergencial) ainda não saiu. Demos entrada em abril, mas até agora nada”, conta e reforça que “as doações da Rede chegaram numa boa hora”.

Também moradora do Sol Nascente, Ana Lúcia, de 31 anos, recebeu cesta básica repassada pela Rede de Solidariedade do DF. Desempregada há cerca de quatro meses, ela cria os dois filhos sozinha e vive de bicos como empregada doméstica. Em meio à pandemia do novo coronavírus, Ana Lúcia teve o benefício do Bolsa Família cortado e não conseguiu acessar o auxílio emergencial viabilizado pelo governo federal. Assim, como milhares de pessoas pelo Brasil, meses após a solicitação, seu pedido está em análise.

“A ação da Rede foi muito boa, ajudou demais aqui em casa. Só quem está precisando sabe como isso é importante. Eu quero agradecer a todas as pessoas envolvidas, e que essa ação possa ajudar mais famílias. De coração, eu agradeço muito”, declarou.

Entrega no Sol Nascente

Trabalho continua
O trabalho da Rede de Solidariedade do DF só é possível por causa das doações realizadas por diversos setores da sociedade. Até agora, mais de 2 mil famílias foram assistidas. Os donativos são entregues para famílias de mais de 20 cidades do DF, como São Sebastião, Sol Nascente, Estrutural, Samambaia, Brazlândia, Ceilândia, Gama, Santa Maria, Paranoá e Itapoã. Também recebem doações comunidades rurais e comunidades escolares da periferia.

“Precisamos dar continuidade ao nosso trabalho. Tem muita gente passando fome em meio a essa pandemia. Mas só podemos dar seguimento às ações com a colaboração das pessoas”, lembra Hellen Frida.

Clique aqui para saber como ajudar.

*O sobrenome das assistidas não foi divulgado para preservá-las de exposição