Formação de agentes tem acontecido em vários estados brasileiros; voluntários agem nas comunidades levando informação e cuidados sobre o novo coronavírus

Desde que a pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil, em março de 2020, o país totaliza mais de 87 mil mortes. Os dados são do último domingo (26), divulgados pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e Ministério da Saúde, os números também indicam que o país conta com 24.578 novos casos confirmados nas últimas 24 horas. A situação mantém o Brasil como um dos países mais críticos na situação da pandemia do novo coronavírus. No entanto, como forma de enfrentar a grave crise sanitária, diversas iniciativas estão surgindo, como é o caso do projeto Agentes Populares de Saúde, do MST. É o que conta Andreia Campigoto, da comissão político pedagógica das campanhas Mãos Solidárias e Periferia Viva e médica do Coletivo de Saúde do MST em Pernambuco.

“É um voluntário que se importa e se dispõe a cuidar, levar informação às famílias das periferias e, com tudo isso, ajuda a construir uma rede popular de cuidado. O Agentes Populares começou como um projeto piloto em um bairro onde já tínhamos uma organização e contato com moradores, o Peixinhos, em Olinda, e depois acabou tendo uma grande ampliação para vários bairros de Recife”, explica ela.

O MST vem realizando ações de solidariedade desde o início da pandemia, com doação de toneladas de alimentos oriundos da Reforma Agrária, produzidos sem veneno nos assentamentos e acampamentos de todo país. Foi em meio à estas ações que a médica explica ter surgido a ideia dos Agentes Populares. “O processo embrionário surge no Armazém do Campo do Recife em março, quando se constrói a campanha Marmita Solidária, com a ideia de fazer a distribuição de marmitas para a população de rua. Acabou tendo vários desmembramentos, como a assessoria popular solidária, com contribuição de advogados populares, e a produção de máscaras de proteção. Junto com isso vem a proposta dos agentes”, diz ela.

A proposta da formação parte da necessidade de levar para a população, principalmente das periferias, conhecimento sobre o novo coronavírus. São formas de prevenção, tratamento e cuidado, além de informações sobre os direitos das famílias. Para Leka Rodrigues, da Coordenação dos Agentes Populares de Saúde de Pernambuco e também assentada do MST, o fato de os agentes serem moradores da região ajuda a entender melhor as demandas daquele território. “As pessoas se organizam na comunidade, fazendo trabalho na sua rua. Assim, eles organizam a região de acordo com as necessidades que surgem ali com as famílias”.

A formação dos Agentes Populares de Saúde

De acordo com Andreia, o curso é uma proposta e parceria da campanha Mãos Solidárias, junto da Universidade Federal de Pernambuco, a Universidade Estadual de Pernambuco e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Ele é composto por três módulos, com uma carga horária total de 20 horas. “Sendo 12 horas de atividades presenciais, é o que a gente chama de tempo escola, e 8 horas na modalidade de dispersão, onde os agentes vão pras ruas, de casa em casa, levar o conhecimento adquirido no processo de formação para essas famílias”, pontua ela. Para atuar como Agente Popular de Saúde, o voluntário precisa passar por essa formação, que conta com certificado assinado pela Universidade Federal de Pernambuco e pela Fiocruz.

Os módulos são divididos por tema, o primeiro “Conhecendo o vírus”, com o ensino dos sintomas do novo coronavírus e como tratá-los. O segundo módulo se chama “Cuidando da minha comunidade”, com a identificação dos grupos de risco e orientação aos infectados e também cuidadores. A médica ressalta que neste segundo módulo é dada uma atenção especial para a disseminação da sabedoria popular, como o uso de plantas medicinais e fortalecimento da imunidade.

O terceiro e último módulo é o “Sem Direitos Não Dá Para Ficar em Casa” e tem como foco fomentar a solidariedade para que seja possível o isolamento social. “Aqui, um pouquinho é para trazer o debate sobre a mobilização para arrecadar as cestas básicas, os bancos comunitários de alimentos, como se dá o aproveitamento da água, identificar pessoas em situação de rua. Então, é uma gama de debates que a gente trata. Esse curso acaba sendo um ponto de partida do que seria a retomada do trabalho de base, ajudar nesse processo de organização popular”, ressalta a médica.

Agentes pelo Brasil

Em Recife, cidade onde o projeto nasceu, já são dez turmas de agentes populares de saúde finalizadas, além de 15 em andamento e outras duas prestes a iniciar. “Nos municípios do interior, são mais dez turmas que começaram nessas últimas duas semanas”, conta a coordenadora Leka. São turmas de formação em Garanhuns, Caruaru e Petrolina.

Na dimensão nacional, o projeto ganhou vida por meio da campanha Periferia Viva, com turmas nos estados do Ceará, Paraíba, Alagoas, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal.

“As turmas começam a pipocar por todos os cantos do país, com objetivo fundamental de cuidar da população, salvar vidas e organizar o povo para o que virá. Esse é o grande desafio, fazer com que esse povo continue organizado e que possa lutar com os seus direitos para construir um Brasil diferente”, finaliza Andreia.

Para retratar o processo de formação e atuação dos Agentes Populares de Saúde, foi lançado, no último dia 20, o programa “O Povo Cuidando do Povo” na TVT (TV do Trabalhadores) e na TVU (TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco).

Assista à reportagem da TV Globo sobre os Agentes Populares de Saúde: