A solidariedade está em evidência nesse momento de isolamento social provocado pela pandemia do Coronavírus. Nesta sexta-feira (26), o tema foi abordado na live do Festival da Resistência, do Levante Popular da Juventude, que está realizando, em cinco dias de encontros, debates com representantes de movimentos políticos e populares.

Na busca por ações efetivas, que de fato pudessem aliviar o sofrimento das pessoas nas comunidades periféricas, os movimentos sociais e de classe, entidades, sindicatos e coletivos, começaram a se organizar logo no início do isolamento para arrecadar alimentos, máscaras, álcool em gel e produtos de higiene e limpeza e doar aos mais vulnerabilizados pela crise social e econômica que bateu às portas dos excluídos com muito mais força.

Nesse sentido, foram convidados a debater o tema da solidariedade, lideranças que vem agindo e estruturando os métodos para efetivar essas ações nas periferias do Brasil, como Preto Zezé, liderança da CUFA – Central única de Favelas, pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho, ativista do movimento negro evangélico e militante dos direitos humanos e Eliane Martins, militante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD) e uma das idealizadoras da campanha Periferia Viva.

Periferia Viva
Em sua fala, Eliane Martins, destacou que a campanha Periferia Viva vem da ideia da construção de um projeto popular, fruto de debates, reflexões e métodos no sentido de construir ferramentas, como o próprio Levante Popular da Juventude, que nasce desse processo em que se reconhece que é fundamental que o povo faça parte das mudanças estruturais necessárias na sociedade brasileira. “O Levante e a Periferia Viva trazem esses elementos de participação efetiva, concreta, organizada e alegre próprias da juventude, como o MTD trás a dimensão do urbano e do periférico”, diz ela.

A ativista destaca que é preciso diferenciar alguns elementos sobre o tema da solidariedade, que está em disputa no Brasil por dois grandes campos: a direita, que produz uma lógica de solidariedade passiva, onde o povo não deve se posicionar nem exigir uma pauta social no centro da discussão. É um tipo de solidariedade que prefere que você fique lá, no seu canto, quietinho, pegue a sua comida, suas coisas, mas não se meta em política. Porque política é uma coisa feia, onde tudo é errado”, afirma Eliane.

Então, dentro desse desse discurso vai se mantendo a desigualdade estrutural, muito mais evidenciada pela pandemia. “O Coronavírus tira os véus e mostra que vivemos um abismo tremendo. E que ainda não saímos ainda da relação casa-grande e senzala.”

Por outro lado, o outro aspecto da Solidariedade, segundo Eliane, é histórico, porque a população negra chegou no Brasil sofrido, tratado de formas desumanas e isso levou essa população a se organizar, a inventar formas de sobreviver. “É um aprendizado que a gente trás da senzala, da escravidão, porque era tão medonha aquela condição de vida, que pra comer, pra ficar vivo, a gente teve que inventar, a feijoada é um exemplo disso, inventamos uma forma de comida para não passar fome.”

Com a consciência da dívida histórica do estado para com a população, que foi jogada à própria sorte após a abolição da escravatura, em 22 de maio de 1888, Eliane afirma que  foi por meio da solidariedade que o povo sobreviveu, uns ajudando aos outros. “Essa condição fez com que o povo tivesse que inventar. No final do século 19, foram as caixas de ajuda mútua, onde se juntava dinheiro pra comprar um alforria de um, pra arrumar um lugar para morar para o outro, para dar um jeito na comida para o outro, para conseguir enterrar os mortos. Então a solidariedade  é da nossa forma estruturante.”

Depois, ao longo do século 20, quando da transição da população do campo para a cidade, o povo não encontra cidades, nem ruas, nem energia ou água. “Essa realidade fez o povo, novamente, se ajudar mutuamente, construindo as casas em mutirão, puxando água e compartilhando com outros. Então, o povo tem na sua memória um patrimônio com relação à solidariedade, não é uma coisa nova para as regiões periféricas.”

Eliane explica que essa solidariedade é negada pelas ideias liberais, que reafirmam constantemente que viver de forma solidária é coisa da pobreza. “Nos últimos anos essa ideia foi produzida para dizer que ninguém precisa de ninguém, que cada um se basta, que o sucesso é individual, que os que não conseguem é porque não se dedicaram suficiente, eles colocam uma carga sobre o povo de que os problemas sociais são do indivíduo, sem relação com o estado, com a divisão das riquezas ou da desigualdade social”.

Nesse momento, é que entram as religiões, segundo ela. “A partir dessa ideia, nós vamos ver uma cultura popular em que é mais fácil negociar com Deus, do que falar com o prefeito, com o governador, quanto mais com o presidente da República.”

Então, para a dirigente, a solidariedade que os movimentos sociais estão organizando dialoga com a dimensão do ser social, do ser humano, que precisa tomar uma dimensão ativa e  consciente no seu processo. “Todos temos uma postura de luta, de sobrevivência diária, mas isso é feito muitas vezes numa linha individual e o desafio da luta popular é cada vez mais puxar isso pra uma dimensão coletiva.”

O trabalho de base, orgânico, leva em consideração essa solidariedade entranhada na realidade das populações das periferias. “Estamos buscando formas de traduzir isso numa questão mais orgânica, em que trabalhamos com alimentos e tudo que todos estamos vivendo, mas como fazer isso enraizar, como fazer com que as pessoas se tornem corresponsáveis?”, indaga.

Primeiro, segundo ela, é precisar trabalhar no sentido da não-fragmentação das lutas coletivas pois, nos 30 anos, foi acontecendo um esvaziamento das lutas urbanas coletivas. “Vemos hoje as associações de moradores muito frágeis e um nível de fragmentação enorme. Em são Paulo, por exemplo, cada bairro tem o seu movimento de luta pela moradia, que é uma concretude, uma necessidade, mas também revela uma fragmentação e, quanto mais fragmentados, menos força e menos capacidade  de pressionar o estado brasileiro.”

Alguns projetos que já estão sendo efetivados em alguns estados, como os Agentes Populares de Saúde, o banco de alimentos e a própria Periferiva Viva, além de campanhas como a Nós por Nós e a Marmitas Solidárias, buscam solucionar os problemas das comunidades por meio do engajamento da própria população.

O projeto Agentes Populares de Saúde consiste em formar pequenos grupos, compostos por  lideranças naturais dos territórios, para que eles possam levar informação correta para sua comunidades sobre o que o o coronavírus e como se prevenir, levando em consideração a realidade local. “Visamos semear essa ideia da organização e da luta coletiva e a gente enxerga a cada dia uma necessidade de um trabalho mais articulado e mais profundo.”

Para ela, é no campo político que essa conexão precisar se dar, por meio de conversas e ações voltadas para encontrar pontos comuns ou um programa mínimo de atuação, como é no caso do alimento.

Nesse sentido, surgiu a ideia do Banco de Alimentos, que  em momentos de crise alimentar, abre discussões sobre formas de produção urbana, como hortas nos bairros, parcerias e apoio aos camponeses e assentamentos do MST, que trazem a luta pela reforma agrária e lançaram neste mês de junho, o Plano Emergencial de Reforma Agrária Popular. “Esses temas se transformam em busca por métodos e geram debates sobre como podemos deslocar pessoas, famílias, para o campo novamente, numa outra lógica de produção de alimentos, agroecológicos, numa outra tecnologia.”

Eliane destaca a importância do envolvimento da juventude nesse momento, especialmente os jovens do movimento estudantil, “porque tem um campo de formação concreta, engajada, com esse sentido de sensibilidade educativa, verdadeira, em que a gente é parte das condições, compreensões e visões de mundo que as pessoas tem, sem julgamento, sem coerção autoritária, mas vai construindo juntos um processo de partilha o conhecimento em comum.”

Cufa
Preto Zezé, dirigente da Central única das Favelas (Cufa), lembra que para as comunidades periféricas a crise está sempre presente e a pandemia reforçou o sentido da solidariedade.  “A Cufa está no Brasil todo realizando essas ações de solidariedade e nosso foco é agenda positiva nas favelas, nosso poder de consumo é de mais de 220 bilhões, maior que o PIB no Uruguai. Com a pandemia, reunimos com o pessoal do voluntariado, quem tiver parente com comorbidades fica em casa, quem não tem vem pra linha de frente ajudar. Na favela empreendedorismo  é estratégia de vida. Conseguimos montar redes, as brigadas, nos organizamos em mais de cinco mil favelas e hoje somos mais de cem mil pessoas envolvidas nessas ações de solidariedade durante essa pandemia”

Ele destaca o programa Mãe da Favela, que é um programa de transferência de renda para as mulheres. “Quando a gente põe o dinheiro na mão delas, ativa a economia do lugar, o cuidado com as crianças, o engajamento social dos territórios, e as mulheres vão tomando conta. Já conseguimos mobilizar mais de 100 milhões de reais, atingimos 2,5  milhões de famílias. Essa mobilização é focada em alimentos, produtos de higiene e gás, em todo o Brasil.”

Zezé fala que as periferias tiveram momentos melhores durante os governos progressitas, mas nesse momento os grupos religiosos esvaziam a agenda pública, tendo se instalado o discurso de religião com política.  Ele também critica a comunicação sobre as formas de prevenção que não servem para as periferias. “A comunicação é ruim porque na favela não tem água e sabão, como as pessoas vão se proteger se não tem como fazer a higiene? Na favela, não temos direito a isolamento para se proteger, mas a gente já vive isolado das condições sociais a centenas de anos.”

Apesar disso,  a liderança comemora algumas vitórias do campo popular, como o valor do auxílio emergencial, que o governo queria fixar em R$ 200 e foi aprovado em R$ 600, o adiamento do Enem, que foi uma luta dos estudantes e das comunidades periféricas que não tem como se preparar da mesma forma que a classe média. “Vemos que é a hora de juntar forças e inteligência, fazendo da solidariedade nossa motivação.”

A religião nas periferias
Henrique Vieira é pastor da Igreja Batista do Caminho, militante do movimento negro evangélico e dos direitos humanos. Ele explica que o campo evangélico é plural, amplo e qualquer generalização desse campo consiste em erro.

O pastor ativista reconhece, no entanto, que existe, sim, um conservadorismo predominante no campo evangélico, mas que não é diferente do conservadorismo histórico presente na sociedade brasileira. Outro ponto destacado pelo pastor é que a base de formação do campo pentecostal é formada por trabalhadores e trabalhadoras das periferias, majoritariamente composto por mulheres e negros, sendo, portanto, um retrato da classe trabalhadora.

“O Brasil é fruto de uma colonização patriarcal, racista e genocida. São séculos de violências estruturais e estruturantes e, embora o conservadorismo evangélico potencialize violências, esse conservadorismo não inaugura essas violências, é um erro concluir que o campo evangélico é o mal da democracia brasileira, como se tirando campo evangélico a democracia brasileira fosse perfeita, participativa, plural. Não, esse país é estruturado na violência. É o genocídio da população negra, a perseguição à população indígena, a violência sistêmica com as mulheres. E é o país que mais mata LGBT’s no mundo. O conservadorismo evangélico, portanto, se expressa no conjunto da sociedade brasileira.”

O Pastor admite o fundamentalismo e o extremismo presentes em alguns grupos pentecostais que visam um projeto de poder, tendo influência nos meios de comunicação de massa e “apoiando e sustentando o governo autoritário e com dispositivos fascistas, que é o governo de Bolsonaro.”

No entanto, para o pastor, é preciso olhar para a realidade popular inserida nas religiões, e praticar o diálogo e a escuta. Ele faz um alerta para que o campo progressista também diminua suas críticas com relação ao campo religioso, pois esse discurso não ajuda na construção de um projeto popular, democrático e transformador para o país. “Essas pessoas tem demandas, por moradia, por saneamento básico, por água, por posto de saúde, por educação pública de qualidade, por creches, elas tem uma demanda do dia-a-dia, fruto de uma sociedade extremamente injusta e desigual.

Então, segundo Henrique Vieira, o diálogo não deve ser com perspectivas colonizadoras, como uma agenda eleitoral ou como donos da verdade. “Essas duas perspectivas, ou pelo viés utilitário eleitoral, ou pelo viés colonizador-civilizatório, são destinadas ao pleno fracasso. É preciso compreender esse fenômeno popular, é preciso chegar perto dessas pessoas e saber quais as demandas e urgências das suas vidas.”

O pastor ressalta que o Brasil tem uma religiosidade pulsante, mesmo na esquerda, dentro doe movimentos como o MTST ou o MST, em que as pessoas tem suas religiões, e que isso é uma característica do Brasil.

“Temos uma religiosidade pulsante que nós precisamos conhecer e conviver, olhar para as demandas concretas da vida, da luta por direitos, entender que fazem parte da classe trabalhadora e oprimida desse país. Muitas vezes a esquerda quer fazer revolução com o povo, nós queremos, mas às vezes parece que queremos fabricar um povo, para produzir uma transformação, um povo idealizado de acordo com nossos critérios. Não! É o povo, do chão da periferia, do chão da favela, com suas lágrimas, com suas contradições. A esquerda também tem suas contradições e não temos o holofote do futuro. A luz do futuro, que transforma essa sociedade, vem da multiplicidade dos saberes, dos saberes populares enraizados no chão da favela e da periferia, e boa parte das vezes esses saberes vem atravessados de fé, de mística, nas igrejas, nos terreiros, nos cultos, nas rodas.  Isso precisa ser levado em conta, e precisa ser respeitado.”

O Festival da Resistência está sendo transmistido pelo Youtube do Levante Popular da Juventude. Para maiores informações e inscrições no Festival acesse: https://levante.org.br/festival-da-resistencia/

Assista à live na íntegra: