Em meio à pandemia do coronavírus, prefeitura dá prazo de 120 dias para famílias, que já possuem casas de alvenaria, produzem alimentos e estão em fase final de construção de uma cozinha comunitária.

Ribeirão Preto vive o pico da pandemia de coronavírus. Outdoors estão espalhados pela cidade como campanha municipal de prevenção contendo a hashtag #FiqueEmCasa. As Unidades de Tratamento Intensivo já possuem uma taxa de ocupação acima de 80%. Mesmo assim, o município, contrariando o próprio discurso publicitário, em uma decisão da justiça, pode jogar na rua 360 famílias vulneráveis que vivem na Comunidade Vila União, na Zona Norte de Ribeirão Preto. De acordo com liminar, ainda não entregue e nem notificada, o prazo para a desocupação é de 120 dias a partir do dia 10 de junho.

Coordenado pela União dos Movimentos de Moradia (UMM), caso a reintegração se concretize, em torno de 1200 pessoas serão atingidas, sendo muitas destas crianças e adolescentes.

 

Crianças realizam atividades lúdicas na brinquedoteca da comunidade.

Em consonância com a ACIRP, após flexibilizar a abertura do comércio no útimo dia 02 de junho, Ribeirão Preto voltou na segunda-feira (15) para a chamada fase vermelha do Plano São Paulo, etapa em que somente serviços essenciais podem permanecer em funcionamento. Neste período de abertura, os números de casos e mortes na cidade subiram exponencialmente, saltando de 1261 casos notificados no dia 02/06 para 3101 neste dia 18, enquanto que as mortes saltaram de 28 para 89 segundo dados da Secretaria da Saúde, um aumento de mais de 300%

Terreno de 62.000 metros estava entregue ao mato e ao lixo pela prefeitura antes da ocupação

Quase 60% das casas da Vila União são de alvenaria.

Criado em 2016, a ocupação urbana já possui 60% de suas casas construídas em alvenaria na área. Pertencendo à prefeitura, de acordo com Wallace Bill, líder comunitário da Vila União e integrante da União dos Movimentos de Moradia, quando as famílias ocuparam a área, esta estava completamente abandonada pelo poder público.

“Eu nasci e fui criado no bairro. A minha vida toda a área esteve abandonada. Eu nunca vi um destino social dado para ela. Quando nós a ocupamos, no dia 3 de junho de 2016, ela estava completamente dominada pelo mato e pelo lixo”.

Casada e com filho, moradora desde que chegou, Maria do Socorro (42) investiu tudo o que tinha na casa que vive e na venda que tem dado o sustento para a família durante a pandemia.

“A minha vida melhorou muito depois que vim para cá. Antigamente, a gente trabalhava só para pagar aluguel e comida. Agora, dá para ter um pouco de conforto.

Maria ainda reforçou a importância de poder continuar a vida no local, principalmente durante a pandemia de covid-19.

“Daqui nós tiramos o nosso sustento. Do jeito que tá, não tem serviço. Nós estamos vivendo daqui. Nós não temos dinheiro para pagar um aluguel. Se essa reintegração acontecer a gente não tem para onde ir”.

Devido a pandemia, a família de Maria do Socorre, atualmente, se mantém financeiramente dos recursos obtidos na venda.

Vida Comunitária Estabelecida

Em quatro anos de existência, a Comunidade Vila União desenvolveu uma horta comunitária que produz legumes, verduras e banana para consumo da comunidade e está construindo uma cozinha comunitária para atender a toda a população.

“A cozinha comunitária veio para suprir a necessidade dos moradores neste momento de isolamento social. Ela surgiu da necessidade dos comunitários de não conseguirem manter os seus empregos e de receberem as doações da sociedade civil. A cozinha serve almoço para 150 famílias todos os dias, quase a metade de toda a nossa comunidade. A ideia é que consigamos oferecer, a médio prazo, o jantar, também”, afirmou Wallace.

Horta Comunitária.

Totalmente orgânica, plantando quiabo de metro, beringela, almeirão, alface, couve, cebolinha, pimentas e até remédios como dipirona, babosa, erva cidreira, boldo etc., a liderança ressaltou que a produção da horta comunitária está integrada com a alimentação solidária oferecida pela cozinha comunitária.

“A horta comunitária foi um dos primeiros projetos que criamos na comunidade. Ela, agora, terá a função de suprir a cozinha, tanto que, agora, ela está em expansão com uma maior variedade de legumes e verduras.”

A União dos Movimentos de Moradia da Grande São Paulo e Interior denuncia que o município de Ribeirão Preto não desenvolve nenhum tipo de programa habitacional desde 2016 e que, por este motivo, as famílias que ocupam pacificamente a área não têm para onde ir. Considerando o caso urgente, mesmo de maneira remota devido a pandemia de coronavírus, a Defensoria Pública está acompanhando o caso.

Repetindo o discurso vago exercido para justificar a remoção das famílias, a prefeitura alega que construirá habitações populares no local. Entretanto, o município não mostra de onde sairá o dinheiro e nem o plano para que tal realização se concretize. Sobre isso, Wallace Bill possui um argumento claro.

“A prefeitura alega que construirá um empreendimento social aqui, mas nós que somos de movimento social e do Conselho Municipal de Moradia sabemos que por informações do Estado e até da própria prefeitura que não será construído nenhum empreendimento para baixo.

Fonte: O Calçadão