Em artigo para o site 247, publicado nesta quarta-feira (17), o coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, denuncia a chocante realidade de milhões de brasileiros que se encontram sem nenhuma alternativa para se proteger do contágio pelo Coronavírus. Na análise, Bomfim cita dados do censo do IBGE de 2010, mostrando que 11,4 milhões de pessoas moravam em 6.324 favelas, espalhadas em 322 municípios brasileiros. Em condições precárias, sem saneamento básico, com pouco ou nenhum acesso à água encanada, que garanta condições mínimas para prevenção e proteção contra a covid-19.

Ainda de acordo com o artigo, diante da pandemia do Coronavírus, um mapa divulgado pela prefeitura de São Paulo mostra que os 20 distritos com mais mortes suspeitas e confirmadas pela covid-19 são os que concentram o maior número de favelas, cortiços e conjuntos ou núcleos habitacionais. ” Sem atitudes firmes e concretas dos governos corremos o risco de levar à morte milhares de pessoas e ao consequente aumento da fome, miséria e desemprego. Percebe-se que ocorre nas periferias e favelas a menor adesão ao isolamento social, provavelmente por influência do discurso do presidente Bolsonaro, que tem estimulado o fim da medida’, afirma a liderança.

Leia o artigo na íntegra: 

A pandemia do novo coronavírus atinge a todos, mas de forma muito mais grave a população que reside nas periferias e favelas. No país, milhões de pessoas moram de forma precária nas periferias, cortiços, ocupações e, sobretudo, nas favelas.As condições de vida da população que residem nessas comunidades já não eram favoráveis, mas com o advento da coronavírus passaram a ser ainda mais dramáticas, pois o contágio avança como um tsunâmi pra cima da população mais empobrecida.

Segundo o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, o Brasil contava com 11,4 milhões de pessoas morando em 6.324 favelas, espalhadas em 322 municípios brasileiros. São assentamentos precários, sem saneamento básico, com pouco ou nenhum sem acesso à água encanada, que garanta condições mínimas para prevenção e proteção contra a covid-19.Mapa divulgado pela prefeitura de São Paulo mostra que os 20 distritos com mais mortes suspeitas e confirmadas pela covid-19 são os que concentram o maior número de favelas, cortiços e conjuntos ou núcleos habitacionais. Tendo o Estado abandonado as periferias, deixando seus moradores sem acesso a direitos básicos indispensáveis à sobrevivência, como saúde, água, saneamento, moradia digna e renda. 

A omissão governamental predomina nas comunidades periféricas e a propagação em massa do vírus, tem levado à contaminação de milhares de pessoas que vivem em condições precárias e em ambientes absolutamente insalubres.Tamanha desigualdade social é resultado da falência do sistema capitalista em escala global, transformando as cidades em mercadoria, imperando os interesses do rentismo e da especulação imobiliária.  Sem atitudes firmes e concretas dos governos corremos o risco de levar à morte milhares de pessoas e ao consequente aumento da fome, miséria e desemprego. Percebe-se que ocorre nas periferias e favelas a menor adesão ao isolamento social, provavelmente por influência do discurso do presidente Bolsonaro, que tem estimulado o fim da medida. 

Outro fator que explica a baixa adesão é elevado índice de desempregados ou  de trabalhadores informais, que saem de suas casas à procura de renda.Se de um lado o isolamento social recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) tem sido a maneira mais eficaz para  diminuir, ou mesmo, evitar o aumento dos números de contaminações eo colapso do sistema de saúde, por outro, existe a preocupação de como estabelecer medidas para conter a disseminação do vírus nas comunidades mais pobres, onde moradores e vizinhos estão muito mais próximos uns dos outros, como é o caso das favelas, em que por vezes 4, 5 e até 8 pessoas  convivem num único cômodo.Pesquisa recente do Instituto Data/Locomotiva realizada em 269 favelas do país aponta que 80% dos moradores têm medo que falte comida para seus filhos, mas, mesmo assim, 71%, se opõem ao fim do isolamento. 

O levantamento revela ainda que 8 em cada 10 moradores tiveram queda de renda após o isolamento, apenas 13% têm mantimentos em casa suficiente para pelo menos dois dias e menos da metade para uma semana.Em 2 de abril, a CMP (Central de Movimentos Populares) lançou a Campanha Movimentos Contra a Covi-19. Desde então, entidades e grupos vulneráveis ligados à CMP organizaram 92 pontos de arrecadação e distribuição de alimentos e produtos de higiene e limpeza em todo o país. Já arrecadamos e distribuímos 99 mil cestas básicas, o que corresponde a duas mil toneladas de alimentos. 

Contudo, temos consciência de que nossa ação, embora seja muito importante, não é suficiente para a resolução do enorme problema social presente nas periferias e favelas.Para além do rápido pagamento do auxílio emergencial, defendemos ações urgentes de todos os níveis de governos (municipal, estadual e federal) para o enfrentamento dessa crise sanitária, econômica e social em curso, especialmente para proteger o emprego, a renda, a pequena e a média empresa.Sabemos que há muitas ações que dependem de vontade política, criatividade e articulação. Nesse sentido, os governos poderiam distribuir máscaras para a população de favelas, ocupações e cortiços, integrar ação de agentes comunitários e agentes da saúde para fazerem o mapeamento das pessoas em situação de maior risco (hipertensos, cardiopatas, diabéticos, em tratamentos oncológicos), entre outros.Abrir UBSs (Unidade Básica de Saúde) mais próximas às favelas, por 24 horas e disponibilizar linhas de microcrédito especial para os microempreendedores das favelas.

 O Estado tem a obrigação com toda a população, mas é preciso proteger de forma prioritária as pessoas mais vulneráveis moradoras das periferias e favelas.Somado à desigualdade social, a população moradora das periferias é a principal vítima do racismo estrutural, cultural e institucional, expresso na extrema violência praticada pelo braço armado do Estado: as polícias. Além do capitalismo, o racismo é fator direto da causa da desigualdade social e violência.  

Os assassinatos em massa de negros desarmados e inocentes, por parte de policiais brancos nos EUA, em outros países do mundo e, aqui no Brasil, em plena pandemia do novo coronavírus é algo que precisa de uma basta.Os casos mais recentes dos assassinatos de George Floyd no EUA, o de João Pedro e a morte do menino Miguel, infelizmente, são exemplos da morte de milhares de vítimas, abatidas todos os dias,  nas periferias e favelas do Brasil, um verdadeiro genocídio da população negra. 

Em 2017, os homicídios entre jovens negros eram quase três vezes maiores do que brancos e chegou a 185 por 100 mil, aponta estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).  Seja sufocado pela ausência de renda, condições precárias de habitação; – situação agravada com a pandemia do coronavírus – ou seja,  pelo racismo e violência policial, o povo das periferias do Brasil, assim como George Floyd, não consegue respirar.Mesmo compreendendo a importância do isolamento social como forma de evitar a propagação da covid-19, não resta outro caminho a não ser sair às ruas em luta contra o fascismo, o racismo , por melhores condições de vida e pelo afastamento do governo genocida de Bolsonaro.

Raimundo Bonfim é coordenador nacional da Central de Movimentos Populares

Foto: Agência Brasil
Fonte: Brasil 247