Iniciativa aborda a necessidade de alimentar o corpo e a mente em tempos de pandemia

São diversas as iniciativas de solidariedade quem vêm tornando menos dura a realidade de milhares de famílias vulneráveis em Salvador nesse período. As ações ocorrem desde o início das medidas de isolamento social que restringiram serviços e atividades na cidade, e são realizadas por diversos setores da sociedade: movimentos populares, igrejas, comunidades de terreiro, grupos de amigos, entre outros . No entanto, uma iniciativa chama atenção: a de doação de livros junto com cestas básicas e materiais de higiene.

“Um livro como um abraço” é o mote da ação de doação de livros que faz parte da segunda fase da campanha #CorraParaAPrevenção, organizada pelo Corra pro Abraço, programa de Redução de Danos da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia (SJDHDS). Desde o final de março, em 12 semanas de atuação, realizou atendimentos para mais de seis mil pessoas em situação de rua, distribuiu kits-lanche e de higiene pessoal, bem como doou itens de higiene pessoal e materiais de limpeza para 33 instituições que fornecem alimentação para pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Além de doação de centenas de cestas básicas para famílias nos bairros da Santa Cruz, Plataforma, Fazenda Coutos e Beiru.

Trícia Calmon, coordenadora geral do programa, explica que o Corra pro Abraço tem como principal objetivo aproximar os serviços públicos básicos das pessoas que sofrem por fatores de estigmatização, criminalização e pobreza extrema que acabam tendo dificuldade de acessar serviços básicos. “O nosso público principal são pessoas que estão em territórios empobrecidos, em situação de rua, jovens de bairros de periferia, pessoas que passam por audiência de custódia, a partir de uma parceria nossa com Tribunal de Justiça. O Programa é executado em parceria com a COMVIDA e a Cipó, duas organizações da sociedade civil”, pontua.

Trícia ressalta ainda que devido às condições de vulnerabilidade do público que o programa trabalha, foi preciso agir de maneira rápida e estratégica para pensar ações de prevenção, já que que se trata de uma população que muitas vezes não tem casa ou que tem em situação insalubre, ou ainda que são trabalhadores informais e precisam estar nas ruas trabalhando para sobreviver. “A situação de fome e de sede nas ruas, principalmente nas primeiras semanas que foi decretado o estado de pandemia, era muito severa, de modo que nós reunimos todos os recursos do programa e de equipe para poder fazer os trabalhos dos campos”, afirma.

Foi no trabalho em campo que a equipe do programa percebeu que, nesse momento de isolamento, há também a necessidade de pensar o entretenimento para as pessoas. “A gente resolve propor a inclusão de livros de literatura nas cestas básicas e disponibilizar também nas ruas esses livros, para que sejam alternativa de entretenimento. As pessoas que estão nessa situação de empobrecimento que leva à fome física, fome de comida, justamente por conta da ausência de outros alimentos, que são os alimentos para o espírito, como livros, educação, como uma boa estrutura de redes e relações que lhe permitam ter condições dignas de vida”, conclui.

A coordenadora conta que para realizar a ação, saíram em busca de parceiros para juntar esforços. “A ONG de São Paulo ‘É de Lei’, a Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas (INNPD), a Secretaria de Educação do Estado da Bahia, Fundação Pedro Calmon e também com a Fundação Cultural do Estado (FUNCEB), Fundação Rosa Luxemburgo doaram livros e estamos fazendo ações direcionadas para as populações mencionadas, provocando discussões sobre a necessidade de alimentação do espírito”.

Trícia diz que as pessoas que recebem os livros nas cestas básicas ou nas ruas têm tido reações interessantes, pois acaba sendo uma surpresa. “Em um momento como esse, as pessoas esperam receber a comida apenas, e, de repente, recebem também um livro. Tem causado uma reflexão exatamente da forma que a gente esperava, porque esperamos um engajamento das pessoas na reivindicação desse direito aos serviços básicos, por acesso a uma boa escola, a uma boa educação, a uma relação de seguridade que permita uma sobrevivência digna para as pessoas”, finaliza.

Como colaborar?

Quem quiser colaborar pode: encaminhar materiais de limpeza, higiene pessoal e alimentação; realizar doação em dinheiro através de conta bancária; divulgar a campanha.

BDF