Na compra de uma cesta, quem vive na cidade colabora com a produção de alimentos saudáveis

Desde que a pandemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, há quase três meses, o MST tem apoiado famílias, projetos e movimentos populares das periferias das grandes e médias cidades brasileiras com a doação de parte das suas produções. Em todo o país já foram doadas mais de 1,2 mil toneladas de alimentos produzidos por famílias camponesas de assentamentos e acampamentos do movimento.

As ações de solidariedade continuam Brasil a fora, mas é preciso pensar nas milhares de famílias produtoras que permanecem no campo, produzindo e sem renda. Como equacionar essa conta?

Há uma máxima no meio rural, sobretudo, entre os pequenos produtores da agricultura familiar camponesa de que “se o campo não planta, a cidade não janta”. No Brasil pós-pandemia, deve se somar a essa máxima a preocupação com a dimensão socioeconômica provocada pela Covid-19.

O desemprego já é uma realidade para 12 milhões de brasileiros. Economistas e estudiosos acreditam que após a crise da Covid-19 esse número terá um acréscimo de 14 milhões de pessoas, sem contar os 40 milhões de brasileiros sem carteira assinada, outros milhares que vivem na informalidade, e os que se sujeitam a contratos precários.

O fato é que a pandemia diz mais sobre nós do que a própria doença. Ela escancarou nossas mazelas e desigualdades e nos impôs uma árdua tarefa, a de nos reinventar. O que tudo isso tem haver com a reforma agrária?

Precisamos encontrar soluções para dirimir os efeitos do pós-crise e nesta perspectiva o MST lançou nacionalmente, na última sexta-feira (5), Dia Mundial do Meio Ambiente, um Plano Emergencial para a Reforma Agrária Popular. O Plano é um conjunto de ações práticas que tem como objetivo promover a criação de novos empregos, produzir alimentos saudáveis, garantir renda e condições para que as famílias permaneçam no campo.

Quando falamos de vida digna no campo, destacamos a necessidade de garantir melhores condições a uma população de mais de 24 milhões de pessoas, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O estudo da FGV aponta ainda que, com o lento crescimento econômico atual, o Brasil só voltará a atingir seu melhor índice em 2030.

Cestas agroecológicas

Em cada cesta agroecológica da reforma agrária, quem vive na cidade e deseja consumir alimentos livres de veneno, produzidos respeitando o homem e à natureza, colabora também para a permanência de famílias no campo, suas ocupações e renda. Um ciclo virtuoso, que alimenta o corpo e espírito, acalentando o sonho de uma sociedade mais justa e igualitária.

Alguns itens da Cesta Agroecológica do MST. Foto: Laura Murta

As cestas agroecológicas começam a ser comercializadas em Montes Claros (MG), na modalidade de circuito curto, isto é, do campo para a casa do consumidor, num esquema de entrega porta a porta, já que as feiras livres estão suspensas durante o período de isolamento social.

Os pedidos poderão ser feitos por aplicativos de mensagens, a partir de uma lista de produtos com mais de trinta itens, desde ovos caipira, carne de porco, farinha de mandioca, mandioca in natura, abóbora, bolos, pães, geleia de frutas da região, rapadura, queijo, enfim, tudo fresquinho, com segurança e comodidade.

“O Movimento sempre teve como uma das suas principais tarefas a produção de alimentos saudáveis para abastecer a nossa mesa e a mesa da população brasileira. Por falta de apoio, muitas vezes essa produção só consegue ser comercializada pelas nossas iniciativas coletivas na organização de Feiras da Reforma Agrária ou através das feiras livres nas cidades”, explicou Samuel Costa, da coordenação regional do MST no Norte de Minas.

Ele conta ainda, que “com a pandemia, ficou ainda mais complicado escoar a nossa produção. Foi assim, com o intuito de apoiar as famílias camponesas para que consigam renda, manter suas famílias e também colaborar com o acesso a um alimento saudável, que adotamos as cestas agroecológicas da reforma agrária como um instrumento de diálogo com a sociedade em geral e como fonte de renda para quem vive da terra.”

Além das cestas agroecológicas, é meta do MST na região implementar um Banco Popular de Alimentos e, a partir dele, implementar uma rede de comercialização que garanta alimento de qualidade com preço justo para quem compra e também para quem produz. Uma maneira simples e eficiente de conter o fantasma da fome que volta a rondar o povo brasileiro, em especial, os mais pobres.