Em live do Brasil 247, nesta quarta-feira (3), foram debatidas as diversas ações de solidariedade realizadas pelos movimentos sociais durante o isolamento social, muitas vezes, sendo a única alternativa de sobrevivência para milhares de pessoas. Participaram do debate Kelli Mafort, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST) e Rogério Babau, da coordenação do Consulta Popular do Ceará.

No encontro, Kelli Mafort ressaltou a importância da solidariedade como fator primordial para a vida de muitas pessoas que, ou estão sem acesso a qualquer tipo de renda por problemas nos cadastros do governo, ou que recebem o auxílio emergencial mas que o valor de R$ 600 é insuficiente para sustentar uma família.

O MST é reconhecido como líder em produção e alimentos saudáveis e, desde o início do isolamento, já realizou doações de mais de 1500 toneladas de produtos agroecológicos.

Kelli explica as ações em que o MST está trabalhando desde o início do isolamento social no Brasil. A primeira é a campanha nacional de ação de solidariedade ao povo brasileiro, ‘Vamos Precisar de Todo Mundo’, uma iniciativa das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, criada para dar visibilidade às inúmeras ações realizadas pelos movimentos sociais país afora.

“Logo no início da pandemia, percebemos que, aqui no Brasil, o encontro do vírus com a fome e com a desigualdade, traria muitas consequências para os trabalhadores e trabalhadoras, então a duas frentes populares iniciaram essa campanha. ”

A campanha oferece em seu site todomundo.org, além das notícias sobre as ações de solidariedade, opções para fazer doações via banco, pontos de coleta para quem quer doar alimentos e produtos de limpeza, e o mapeamento desses pontos. Cada ponto pode representar de 10 a 15 iniciativas de solidariedade.

Junto com a campanha  também nasce a  Plataforma Emergencial de Combate ao Coronavírus que apresenta uma série de propostas para mitigar os efeitos dramáticos do Coronavírus na vida das pessoas mais pobres.

“Desde o início da pandemia no Brasil,  já denunciávamos que a ação do estado, além de ser de omissão, também é genocida, principalmente da parte do governo federal que, além de não proteger as pessoas, não promover nenhuma coordenação do estado brasileiro em relação a essa crise gravíssima da pandemia, ainda incentiva a população a não  respeitar o isolamento social.”

A morosidade do governo com relação a medidas emergenciais, como a renda básica,  também é citada pela dirigente como fonte de preocupação que levou à criação da Plataforma.

Outra iniciativa do MST é a campanha Periferia Viva. Kelli explica que os movimentos sociais, como a Via campesina, O MST, o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Trabalhadores/as por Direitos (MTD), já realizavam ações voltadas para as periferias dos centros urbanos.  Com o surgimento da pandemia, esses movimentos organizaram a Periferia Viva, que congrega três elementos fundamentais: a solidariedade, que consiste em basicamente salvar vidas, por meio da doação de alimentos que vem do campo, da agricultura familiar, da reforma agrária, dos quilombos e até de algumas comunidades indígenas e ações de coleta e distribuição de cestas básicas.

Também iniciativa do MST, o projeto Marmitas Solidárias prepara os alimentos e distribui a comida quentinha para os mais vulnerabilizados, como as pessoas em situação de rua. Essa ação já acontece em cidades como Recife, Caruaru,  São Paulo, Minas Gerais e Curitiba.

Outro pilar da Periferia Viva é a Batalha das Ideias, uma forma de debater sobre a fome de conhecimento. “Junto com alimentos, distribuímos livros, panfletos e outros materiais,  explicando de onde vem aquele alimento e a importância de defender a reforma agrária e tem havido bastante aceitação nessas ações”, diz Kelli Mafort.

E, por fim, o trabalho de base. “Por meio das ações de solidariedade é possível avançar no diálogo com o povo, estamos encontrando abertura não só nas doações, mas também, para falar sobre a organização e as lutas populares.”

Na avaliação de Rogerio Babau, dirigente do Consulta Popular, que também agrega outros movimentos como o Levante, o Movimento dos Atingidos por Barrragem (MAB) e o MTD, a situação das periferias do Brasil está cada vez mais dramática e as ações de solidariedade das organizações de trabalhadores são as únicas alternativas de sobrevivência para muitas pessoas.

“A gente vem nessa pauta da luta urbana há muito tempo, mas agora vemos que a situação piorou muito. Aqui no Ceará tivemos muitos problemas sociais recentemente, como motins, guerras de facções e agora a pandemia, que chegou muito pesada em Fortaleza.”

No Ceará já morreram 12.500 pessoas pelo Coronavírus e são mais de 56 mil casos confirmados, uma das taxas mais altas do país.

“Nos juntamos com a Frente Brasil Popular e iniciamos campanha Periferia contra o corona. Já realizamos três ações e estamos nos preparando para mais uma, sempre agregando a solidariedade com a consciência política.”

Como o povo recebe os movimentos sociais – Sobre a receptividade da população às ações organizadas por movimentos sociais de esquerda, Kelli avalia que há um avanço na compreensão das pessoas no que diz respeito aos movimentos. “A gente tem recebido muita abertura e apoio das pessoas, inclusive, percebemos que os preconceitos com os movimentos sociais estão sendo quebrados.”

Kelli ressalta a importância de explicar que o Brasil está entre os países mais desiguais o mundo, sendo o oitavo na América Latina, e está no topo em diversos rankinkgs, como a falta de água potável e saneamento básico. “É preciso dizer que aqui a gente tem que enfrentar o vírus, a fome, a questão política que nos impõe uma agenda de ter que se colocar politicamente, por que o presidente coloca em risco a vida das pessoas. Precisamos do fora Bolsonaro para salvar vidas, para enfrentar esse projeto genocida.”

Sobre a flexibilização do isolamento social, Kelli questiona o verdadeiro motivo dos gestores com essa decisão. “Temos que nos perguntar em quem eles estão se baseando, na classe média, que tem planos privados de saúde? Temos que cobrar do estado que proteja a população das periferias”

O maior grupo de risco é ser pobre – Rogerio Babau diz que a pandemia evidencia três dimensões para quem vive nas periferias: o aspecto cultural, porque nas comunidades as pessoas vivem muito juntas, no social; o econômico, porque entre desempregados e os trabalhadores informais o país tem hoje cerca de 50 milhões de pessoas sem fonte de renda e dependendo do auxílio do governo, que é pouco e apresenta muitos problemas no seu acesso; e a ausência de um projeto de reforma urbana, que faria a diferença numa situação de pandemia, caso as pessoas tivessem moradia com dignidade.

O governo na visão do povo –  Para Kelli Mafort, o governo Bolsonaro não tem legitimidade, porque foi eleito pelas fake news, que manipularam a população.  Esse fator, segundo ela, contribui para que haja, nesse momento, uma crise no bolsonarismo. “Nas periferias temos visto que esse descontentamento tem aumentado, alguns setores que eram da base de apoio do governo já começam a se afastar, como os pentecostais, pastores e pessoas da comunidade que se aproximam das ações de solidariedade”.

Para a dirigente, o impeachment de Bolsonaro é questão de tempo: “A agressividade dele é típica dos desesperados. Por isso, temos que manter o foco e a calma, dentro da luta democrática, sem cair nas provocações dos bolsonaristas. O #ForaBolsonaro é em defesa da vida e temos que apoiar todos movimentos que estão nessa luta.”

Na avaliação de Rogerio Babau, os movimentos das torcidas organizadas e outras manifestações que estão surgindo no país são um sopro de esperança. “As torcidas tem 98% de jovens, e essa juventude vem sendo marginalizada há anos, chega um momento que a panela de pressão vai explodir, as ações na paulista, em Curitiba, são um sinal claro disso. A gente vai vencer esse processo porque o povo está com a gente, seja pelas torcidas, seja pelos movimentos populares, o povo está acordando.”

Para saber mais sobre as ações solidárias que estão fazendo a diferença nesse momento do país, fazer doações ou cadastrar/ iniciar uma ação solidária, acesse o site da campanha Vamos Precisar de Todo Mundo e as páginas da Periferia Viva e da Consulta Popular nas redes sociais.

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