De acordo com o ISA (Instituto Socioambiental), a limitação de renda e acesso à alimentação de diversas comunidades e povos tradicionais da região do Vale do Ribeira, na divisa entre São Paulo e o Paraná, se deteriorou durante a pandemia. E isso ao ponto de 39 grupos sociais da localidade — entre aldeias indígenas, comunidades quilombolas e caiçaras, trabalhadores rurais e urbanos de nove municípios da região — pedirem alimentos.

Nesse contexto, a Cooperquivale (Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira) organizou a produção e a entrega emergencial de cestas de produtos da pesca caiçara e da roça dos quilombos para ajudar a suprir as necessidades básicas de 716 famílias da região e também da capital paulista. A demanda atual mapeada já chega a quase mil cestas de alimentos por mês.

Um dos parceiros na distribuição, o ISA informa que o volume total de doações já soma 15 toneladas. As cestas produtos da roça quilombola tem 26 tipos de alimentos orgânicos que integram o Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, registrado como patrimônio imaterial do Brasil pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) — de mandioca, cará, chuchu e abacate a variedades de banana, laranja, poncã, palmito, mel, além de farinha de mandioca, rapadura.

Maria Teresa Vieira conta que, além de aldeias Guarani e de comunidades pobres da zona sul da capital paulista, também moradores da região de viviam do turismo precisaram das doações de alimentos. Para ela, essa ação é simbólica porque visibiliza os quilombolas.

“Estamos no meio do mato, vivemos da terra e passamos também por muitas dificuldades, embora ajudemos quem precisa de algo prioritário como comida. Em momento algum a classe política olha para nós como olha para os grandes empresários. É uma luta diária para a gente conseguir ser visto, ouvido. Por isso, deveriam valorizar mais nosso trabalho. Sem o pequeno agricultor, a alimentação não chega à mesa dos brasileiros”, diz a agricultora.

‘Vacina da terra’

Maria Teresa Vieira é tataraneta de escravizados. Aos 42 anos, vive no quilombo do Nhunguara, no Vale do Ribeira (SP). Junto a outros moradores das cerca de 200 famílias dali, ela tem buscado “tornar menos dolorida e difícil a vida de quem está padecendo com essa pandemia”. Em uma ação organizada, o que é produzido na roça dos quilombos tem ido para a mesa de famílias pobres da região e da capital.

“Tive uma vida de privações, mas nunca passei fome porque minha mãe sempre trazia algo da roça. Nós temos variedade de alimentos. Disso, somos ‘ricos’. Então, acho que podemos ajudar”, diz ela.

Se a alimentação já é um direito que nem todo brasileiro tem regularmente, em uma situação de pandemia a desigualdade se agrava. A previsão de especialistas não é animadora: o país deve triplicar o número de pessoas em situação de extrema pobreza. Eram 13,8 milhões em 2019, quando a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) informava que o Brasil estava de volta ao Mapa da Fome, posição que havia deixado em 2014.

Enquanto as políticas públicas não chegam, ou chegam lentamente, agricultores familiares em todo o país têm se organizado em ações coordenadas para distribuir comida a populações de periferias nas grandes cidades, pacientes de covid-19 em hospitais públicos superlotados, povos indígenas, pessoas em situação de rua, desempregados. Esses produtores integram um setor do agronegócio que, embora dissociado da imagem pujante de país exportador, responde pela renda de 40% da população economicamente ativa do país e por mais de 70% da renda dos brasileiros ocupados no campo.

Para entender como vêm trabalhando, Ecoa foi ouvi-los. Eles são parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), dois grupos que têm feito distribuições de alimentos orgânicos in natura, marmitas e leite a comunidades vulneráveis. Juntas, as ações já somam mais de 1.200 toneladas de alimentos. Se há “linha de frente”, há também ação de base.

“Sobrevivemos 500 anos”

Também quilombola, tataraneto de escravizados e de Iporanga, o agricultor Osvaldo dos Santos, 53, doou mandioca, cará, batata, laranja e cana para as cestas que abasteceram ideias indígenas da região. Ele integra a Cooperquivale que, afirma, “vem aos trancos e barrancos desde o final do governo Dilma [2016], com cortes”.

Santos tem fé que a pandemia vai passar. Até lá, espera que haja maior conscientização por povos como o dele, que vivem em áreas de terra como os quilombolas do Vale do Ribeira já desde as primeiras décadas após a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500.

“Poder ajudar quem mais precisa agora não deixa de ser interessante, já que as comunidades quilombolas ainda são mal vistas por parte da sociedade por pleitearem um território que, pela Constituição, é direito nosso, mas o governo não reconhece.”

Estamos na terra com ou sem político nos apoiando. Porque a nossa sobrevivência tem como base os alimentos que sabemos plantar e colher. Sobrevivemos 500 anos assim, e, nesse momento de pandemia, repassamos a quem mais precisa essa herança do nosso trabalho. Tem recado mais poderoso que esse?

Osvaldo dos Santos, agricultor quilombola

350 mil famílias unidas

Presente em 24 Estados brasileiros, com 350 mil famílias — em média, 1,4 milhão de pessoas —, o MST também tem realizado ações de doação de alimentos in natura e leite, produzidos por seus integrantes em acampamentos e assentamentos. O movimento nasceu em 1984 com as bandeiras de luta pela terra, pela reforma agrária e por mudanças sociais no país. Eclodiu, portanto, em um momento de forte efervescência política, ante o fim próximo da ditadura militar (1964-1985), contexto no qual endossou também a luta pela redemocratização e conquista de direitos sociais.

No Paraná, Estado de natureza majoritariamente agrícola e onde o movimento tem um de seus braços mais fortes no país, dezenas de toneladas de alimentos têm sido arrecadados entre assentados e acampados desde o começo de abril para suprir populações com situação de vulnerabilidade agravada pela pandemia.

Wellington Lenon / MST-PR

Um desses produtores é Paulo Sergio de Souza, 45. Ele aderiu ao MST em 1996 junto aos pais, camponeses em um pequeno sítio arrendado. Acampado em Quinta do Sol, no Noroeste do Paraná, ele se diz satisfeito por conseguir ajudar, hoje, após ter passado fome.

“O primeiro acampamento ficava na beira do asfalto e foi muito difícil. Era muita repressão e pobreza, os espaços para plantio eram pequenos. E não era nada fácil a relação com a cidade, porque muitos tinham preconceitos conosco”, lembra. “Um dia, em 1997, não tínhamos nada sequer para o café da manhã. Fomos à cidade pedir ao menos para as nossas crianças, e um dono de mercearia saiu atrás de nós com um pau nas mãos. Não tem como esquecer isso.”

A mudança de rumos começaria com o assentamento das 40 famílias iniciais, quando o Incra arrematou em um leilão uma área que pertencia ao Banco do Brasil e a destinou à reforma, em 1999. Ali, segundo o agricultor, começaram as bases para o autosustento que, em 2020, culmina com doações de centenas de quilos de tubérculos, verduras e frutas na pandemia.

“Doamos alimentos orgânicos para um comitê da covid-19 na Unespar [Universidade Estadual do Paraná], em Campo Mourão, e para a Santa Casa da cidade. Chegamos a arrecadar 1,5 mil kg de alimentos de apenas 30% dos assentamentos. Perguntamos do que ele mais precisavam, e entregamos arroz, feijão e frutas. A pandemia não afetou a nossa produção, embora as vendas, em parte, tenham sido afetadas.”

Outra ação do MST na região foi a criação de uma horta comunitária voltada exclusivamente às doações a afetados pela pandemia. São 5.000 metros quadrados de área cultivados por 120 famílias.

Também no Paraná, mas em Arapongas, ao norte do Estado, o agricultor Alencar Hermes, 52, preside a Copran (Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa), unidade do MST no município. Filho de pequenos agricultores do Rio Grande do Sul, entrou com eles e mais quatro irmãos para o movimento, em 1997, para ter mais acesso à terra. Nunca passou fome — embora, assinale, tenha visto agricultores encararem muitas restrições alimentares no começo das ocupações.

As doações de parte dos 92 assentados da região são feitas por intermédio da Copran, que negocia o leite extraído nos assentamentos e organiza a distribuição. Inaugurada em 2013 com a presença da então presidente, Dilma Rousseff (PT), e do governador à época, Beto Richa (PSDB), a Copran tem hoje mais de 1.000 associados que, durante a pandemia, passaram a doar parte da produção a hospitais públicos.

“Acompanhávamos pelo noticiário que os hospitais regionais passavam por muita privação de recursos. A partir daí, iniciamos uma espécie de campanha, pelos nossos grupos de WhatsApp, para coletar leite que pudesse ser doado a essas unidades. Rapidamente, superamos 5.000 litros — as famílias nos autorizaram a descontar isso do pagamento que fazemos a eles, já que estavam abdicando de vender parte da produção”, explica Hermes.

Também alimentos in natura foram arrecadados para doação entre os assentados, mas para entrega em locais próximos àqueles hospitais. “Somos um grupo bem privilegiado na agricultura familiar, porque somos instigados à nossa soberania, especialmente a alimentar, o que é essencial na vida das pessoas. É importante zelar pela dignidade das pessoas, e ver as famílias nos assentamentos engajadas nisso, dividindo o que têm, nos mostra que a ação solidária supre todo tipo de lacunas — inclusive, por vezes, a do Estado.”

Wellington Lenon / MST-PRWellington Lenon / MST-PR

No oeste paranaense, Adair Gonçalves, 40, integra um assentamento de 51 famílias que doaram mandioca, arroz, feijão, abóbora e banana ali cultivados para os mais vulneráveis na pandemia. Integrante do MST desde 1991, conta que viveu pré-adolescência e adolescência em um acampamento de 96 pessoas — as quais perderam quase 15 mil metros quadrados de plantação, nos primeiros anos, após uma forte chuva de granizo.

“Aquilo destruiu toda a produção, só sobrou mandioca, que é mais resistente ao tempo e às pragas. Foi um tempo de muitas restrições a todos ali. Lembro que até por questões não alimentícias: as crianças do acampamento tinham que revezar, entre si, o único par de tênis que havia para a aula de educação física na escola”, recorda-se.

Desde abril, as doações do assentamento foram feitas a entidades assistenciais, ao Hospital do Câncer de Cascavel e a povos indígenas da cidade de Guaíra. “A proposta dessas ações, em geral, é não doar sobra, mas nos solidarizar dividindo o que temos. Porque a orientação no movimento é entender essa pandemia como um processo longo de crise para o qual temos de estar preparados. E acreditamos que passar por isso solidariamente vai ajudar todo mundo a superar mais rápido.”

População de rua e imigrantes

No Estado de São Paulo, a maior parte dos contaminados pelo novo coronavírus está na região metropolitana, e a doença tem ligado o alerta para quem está mais vulnerável: populações pobres, quem vive em periferias, quem mora nas ruas. Foi nesse público que o MST no Estado focou as ações — não apenas de entrega de cestas de alimentos in natura, mas de produção e distribuição de marmitas com produtos doados por agricultores.

Segundo o coordenador estadual do movimento, Gerson Oliveira, as doações de alimentos advêm especialmente de 118 assentamentos da região do Pontal do Paranapanema, oeste paulista, e os localizados próximos a Ribeirão Preto e Campinas.

Ainda que sob “cortes drásticos por conta do esvaziamento de políticas públicas voltadas aos assentados”, observa Oliveira, foi possível reunir cerca de 100 toneladas de mandioca, batata, legumes, hortaliça, feijão. Com a arrecadação e a ajuda de cadastros sociais de igrejas, as doações foram distribuídas na capital, com mais fôlego em Cidade Tiradentes, na zona leste. Também em Perus, na zona noroeste, e na favela do Moinho, no centro.

Do final de abril às primeiras semanas de maio, o movimento realizou um projeto de “marmitas solidárias”, por meio do qual foram distribuídas, em 30 dias, 6 mil unidades, em almoço e jantar, a uma ocupação urbana na rua Voluntários da Pátria, na zona norte, na qual vivem cerca de 300 famílias de egressos do Haiti e de países africanos. Parte dos alimentos vem do assentamento Marielle Vive, na região de Campinas, e Nelson Mandela, na de Ribeirão Preto.

MST-SP

A produção das marmitas é feita por uma “brigada” de mais de dez pessoas em um restaurante cedido ao movimento, atento aos cuidados necessários na pandemia. Na capital paulista, quem coordenou essa equipe foi Simone Tomaz dos Santos, 44, ingressa no MST em 1989, aos 12 anos, primeiro por um grupo de jovens, depois, pela organização das mulheres do movimento.

Ex-aluna de escolas do movimento e agora licenciada em educação do campo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Simone deixou o assentamento há dez anos para atuar na secretaria estadual do MST, na capital. Ela nega que, no bojo das ações, esteja uma tentativa de mudar o olhar de quem defende a criminalização do movimento.

“Nosso primeiro objetivo é trabalhar a solidariedade e socorrer as pessoas na fome. É claro que somente essas ações não são suficientes para reverter essa imagem distorcida que muitos ainda têm, mas não deixa de ser importante para mostrar o contraponto do que é colocado pela sociedade a nosso respeito”, avalia. No caso das marmitas feitas na capital, apenas o arroz orgânico vem de fora — no caso, de assentamentos do MST no Rio Grande do Sul.

Simone contou que uma cena, em particular, a tocou durante uma das entregas de quentinhas na ocupação africana. “Vi uma criança esperando para receber a marmita em meio a vários outros. Ela não usava máscara, mas, quando nos viu, tapou o nariz e a boca com a camiseta e veio pegar a marmita. Para ela, a necessidade era muito maior do que o risco.”

Um mundo além do umbigo

“Minha primeira lembrança é a de sempre conviver com bastante gente — e de vários lugares diferentes do Brasil, especialmente pelo centro de formação. As doações de alimentos na pandemia são uma forma de lembrar também que, se a classe trabalhadora na cidade passa fome, é a classe trabalhadora do campo que vai buscar ajudar”, opina Simone.

Ação semelhante à do MST em São Paulo vem sendo implementada pelo movimento no Estado de Pernambuco, o sexto em número de confirmados com covid-19 nos levantamentos mais recentes do Ministério da Saúde. Na capital Recife, sem terra e voluntários têm atuado diariamente para a produção e distribuição de marmitas feitas com produtos orgânicos e destinadas a grupos mais vulneráveis à pandemia, em ação vinculada à arquidiocese Olinda e Recife. A ação é centralizada no Armazém do Campo, loja que comercializa produtos do movimento à beira do rio Capibaribe.

Ao todo, são 1700 marmitas por dia, entre almoço e jantar, desde abril, além de cestas de produtos orgânicos advindos de assentamentos em Garanhuns, Palmares e Petrolina, complementadas por doações de voluntários do movimento.

Queiram ou não os governos, nossos assentamentos são lugares de muita produção e diversidade de alimentos. Nosso diálogo interno é no sentido de que precisamos plantar para nós, mas também sermos solidários, se de fato lutamos por um lugar mais justo e igualitário

Simone Tomaz dos Santos, educadora e integrante do MST

“As dificuldades que os mais pobres têm enfrentado nas periferias é gigantesca — e não só para se alimentar, mas para acessar o auxílio emergencial do governo federal [de R$ 600]. Por essa razão, tivemos de formar uma frente também de advogados para auxiliar nisso, porque a nossa função é dar apoio tanto na zona rural quanto na cidade”, conta a coordenadora da brigada das marmitas no Recife, Fabíola Amaro dos Santos, 28. “Não à toa, um dos lemas do MST é: ‘[Se] O campo não planta, a cidade não janta'”, destaca.

Fabíola é de uma família de camponeses do interior pernambucano, a cerca de 700 km da capital. Estuda geografia da terra como beneficiária no Centro Paulo Freire, no Recife, pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

Para ela, a pandemia tem ensinado que cada um precisa fazer sua parte para superar ou, ao menos, minimizar crises como a atual. “A mística da solidariedade está entranhada na nossa veia, na nossa história, e não é porque temos essa crise grave que vamos deixar de atuar — seguindo todos os parâmetros de proteção”, diz ela.

“Existe um mundo além do nosso próprio umbigo. Não podemos nos dar ao luxo de ignorar isso”, conclui.

Wellington Lenon / MST-PRWellington Lenon / MST-PR

Fonte: UOL/Ecoa