Em tempos de pandemia, solidariedade é vida, já dizia nossa matéria de capa da edição 66, edição do mês de abril, da Revista Xapuri. É com esse espírito que nós da Xapuri compartilhamos com você – e pedimos que você compartilhe em entre suas amizades e em suas redes sociais, a campanha Máscaras Solidárias para o Povo Kalunga de Iaiá Procópia.

Infelizmente, o coronavírus já chegou às comunidades Kalunga e o povo da matriarca Procópia dos Santos Rosa precisa com urgência da nossa solidariedade e da nossa doação. Contribuições em dinheiro podem ser feitas através de nossa Vaquinha Online. Contribuições em espécie podem ser tratadas diretamente conosco via whatsapp: (61) 9 9961 1193.

A seguir, você encontra o vídeo da Campanha e os textos que estão disponíveis na página  da Vaquinha, no Captar. De antemão, agradecemos  sua parceria e sua solidariedade. Bora lá?

OBJETIVO, META E PRESTAÇÃO DE CONTAS DESTA CAMPANHA

O objetivo inicial desta campanha é captar um mínimo R$ 5 mil reais para que as mulheres quilombolas fabriquem, elas mesmas, as máscaras que poderão salvar vidas em suas comunidades. Recursos adicionais serão utilizados para o gasto com transporte de pessoas enfermas para os hospitais mais próximos.

Não há uma meta específica, serão construídas quantas máscaras o recurso alcançar. Há necessidade de pelo menos um milhar de máscaras, só no Quilombo Riachão vivem mais de 300 pessoas. Muitas delas não podem ficar em casa, precisam sair para ganhar o pão de cada dia nas fazendas e cidades próximas.

Combinamos com Bia Kalunga, do Museu Iaiá Procópia, que os recursos arrecadados, excluídos os custos operacionais, serão repassados ao Museu que, por sua vez, fará a compra dos materiais necessários e se responsabilizará pela prestação de contas, exceto no tocante à entrega de recompensas, que será feita pela Xapuri.

Como recompensa, cada doador ou doadora receberá uma foto impressa ou um porta-retrato com uma foto de Iaiá Procópia, conforme o valor financeiro doado. Contribuições em espécie – linhas, tecidos, máquinas de costura – também serão aceitas para entregas somente em Brasília, mediante contato via whatsapp: 61 999611193.

Dentre os custos operacionais, incluem-se: a) produção e envio de recompensas – basicamente impressão de fotos e custos de correios, já que os porta-retratos foram doados por Rosilene Corrêa Lima, diretora do Sinpro/DF, que os solicitou e recebeu como presente de aniversário, em março de 2020; b) encargos bancários; c) taxa administrativa do Captar, no valor de 13% dos recursos captados.

Da África, vieram as primeiras mulheres e os primeiros homens de cor negra. Eram povos de muitas nações, culturas, línguas e modos de vida próprios. Muitos morreram resistindo à captura, resistindo ao embarque, ou sobrevivendo aos fétidos navios negreiros, na cruzada pelo Atlântico.

Os que sobreviveram tornaram-se mão de obra escrava nos engenhos e minas do Brasil. Ante os mais cruéis dos maus tratos, organizaram revoltas, fugiram, criaram quilombos, em lugares estratégicos e de difícil acesso. O mais famoso foi o Quilombo de Palmares, no sertão do hoje estado de Alagoas.

Algumas famílias reencontraram a liberdade na Chapada dos Veadeiros, no norte de Goiás. A Chapada é um mar de serras e morros cheios de buritis que se estendem até onde a vista alcança. O Território Kalunga é cercado por eles.

São encostas íngremes, cheias de pedra. Os caminhozinhos estreitos fazem curvas e sobem cada vez mais, quase perdidos no meio do mato. Depois, do outro lado, os paredões de pedra caem quase a pique nas terras baixas dos vales, como muralhas impossíveis de ultrapassar.

Desde mais de três séculos atrás, por ali as famílias foram crescendo, se multiplicando, se espalhando, formando comunidades. Devagarinho, o povo Kalunga foi se estendendo pelas serras em volta do Rio Paranã, por suas encostas e seus vales, que os moradores chamam de vãos. Hoje eles ocupam um vasto território que abrange parte de três municípios do estado de Goiás: Cavalcante, Monte Alegre e Teresina de Goiás.

Depois de muita luta e resistência, o Quilombo virou Sítio Histórico e Cultural, Território do Povo Kalunga, sagrado como a calunga, plantinha-símbolo da terra boa que lhes garantiu o sustento da vida.

PROCÓPIA DOS SANTOS ROSA

Procópia dos Santos Rosa, conhecida como Iaiá Procópia, nasceu, foi criada e, aos 85 anos, segue vivendo no Quilombo Riachão, localizado no município de Monte Alegre, no estado de Goiás, quase na divisa com o Tocantins. Riachão fica em região de difícil acesso – de Brasília tem que viajar cerca de 300 km até Teresina de Goiás, daí seguir por 22 km na rodovia que liga Teresina a Monte Alegre, para então dobrar à esquerda e, entre morros e mais morros, romper por entre três e quatro horas os 60 km de estrada de terra até a casinha branca de Procópia, localizada bem ao lado da escola, no centro da comunidade.

É dali que ela dá aconselhamentos, puxa rezas, instrui sobre plantações e colheitas, conta a história dos Kalunga, fala da família, da importância de preservar a identidade cultural de seu povo.

Por décadas, Iaiá Procópia guardou em casa os muitos registros da memória oral e os preciosos documentos escritos dessa rica história coletiva. Em janeiro de 2020, Iaiá inaugurou, em sua própria comunidade, o Museu Iaiá Procópia. “O meu museu, eu quero fazer eu mesma, com a ajuda de vocês”, disse ela em seu discurso de inauguração.

Estava lançado o desafio. Tornou-se compromisso nosso contribuir para consolidar o Museu da vida militante de Procópia. Aí, chegou essa pandemia. E, com ela, mudaram os planos. “A precisão agora é de máscaras para salvar a vida das pessoas das comunidades”, diz Procópia.

A neta Bia Kalunga, escritora, professora e liderança comunitária, expressa o pedido da matriarca de seu povo: “Iaiá precisa de linha e tecido para que sua comunidade possa, ela mesma, produzir milhares de máscaras para as comunidades de todo o território Kalunga”.

MUSEU IAIÁ PROCÓPIA

O Museu Iaiá Procópia é onde a matriarca Kalunga guarda as memórias de seus 85 anos de vida, que se confundem com a própria história do Povo Kalunga.

É pequenino o Museu de Procópia. Na verdade, é apenas uma sala de chão batido, com menos de 50 metros quadrados, com duas ou três prateleiras onde se mesclam as artes e os documentos do registro da memória Kalunga.

Em uma das paredes, forrada com chita, fotos de Procópia e das muitas lutas de seu povo. Na outra, um lindo estandarte e outras quantas fotos da Iaiá. De chique mesmo só o mural pintado na parede externa por uma anônima artista goiana.O prédio custou cerca de R$ 10 mil reais, pagos com os recursos de um prêmio que Procópia ganhou.

É Bia Kalunga quem cuida do Museu de Iaiá. Professora com especialização em Educação do Campo pela UnB, membro da Alaneg – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano –, por delegação da avó, cabe a ela manter viva a tradição, a oralidade, e organizar os documentos de Procópia. É ela quem ensina o significado do pertencimento do povo Kalunga.

Da avó, aprendeu a história que os mais velhos preservam e transmitem às crianças. Como professora da Escola da comunidade, Bia faz de seu trabalho no Museu extensão da prática cotidiana de resgatar a identidade e a memória de seu povo, oralmente passada de geração em geração desde tempos ancestrais.

Às vezes são histórias que se perdem lá para trás, no tempo da lenda, tempo do era uma vez… Um tempo em que os bichos falavam e, com suas histórias, ensinavam lições para as pessoas. Histórias que falam dos seres da mata e dos que vivem perto de casa.

Sob o olhar atento de Procópia Rosa, Bia vai juntando as peças dessa trajetória da resistência, da formação do Quilombo Riachão, das lutas pela demarcação e documentação do Sítio Histórico e Cultural do Povo Kalunga. É essa história que compõe o fermento e a massa do Museu Iaiá Procópia.

 SÍTIO HISTÓRICO E CULTURAL TERRITÓRIO SAGRADO DO POVO KALUNGA

No Quilombo Riachão vivem cerca de 60 famílias. Os Kalunga do Riachão são remanescentes de um povo que luta, há mais de 300 anos, por sua comunidade, por sua sobrevivência e por seu bem mais precioso, a liberdade.

O povo Kalunga é uma comunidade de negros e negras formada por descendentes de pessoas escravizadas que fugiram do cativeiro e organizaram um quilombo, há muito tempo, num dos lugares mais bonitos do Brasil, a Chapada dos Veadeiros, no norte de Goiás.

O Riachão faz parte do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), o maior território de quilombo no Brasil, com 261.999,69 hectares, localizado em uma área que perpassa três municípios goianos, Cavalcante, Teresina e Monte Alegre de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. No Sítio Histórico, que os Kalunga consideram Território Sagrado, vivem cerca de 1.500 famílias, organizadas em 11 comunidades.

Kalunga significa lugar sagrado, de proteção. No sentido dado pelos moradores do Sítio Histórico, significa “lugar sagrado que não pode pertencer a uma só pessoa ou família”, ou “lugar onde nunca seca, arável, sendo bom para as horas de dificuldade”.

AGRADECIMENTOS

A organização desta campanha só é possível graças ao trabalho generoso e solidário de muitas pessoas. Gratidão para Iaiá Procópia, pelas muitas lições de vida, e para Bia Kalunga, pela confiança e parceria. Agradecimentos também para: Zezé Weiss (concepção da campanha, roteiro e fotos); Emir Bocchino (edição e diagramação); Agamenon Torres Viana, Lúcia Resende, Iêda Vilas-Bôas (redação e revisão de textos); Calleb Reis (fotos); Rosilene Corrêa Lima (porta-retratos). Algumas imagens são fotos de reprodução da internet. A música do vídeo é “Congo Man Chant”, de Ernesto Ranglin. A imagem da família quilombola de máscaras, usada no vídeo, é reprodução de uma pintura de Dulce Martins, gentilmente cedida por Odécio Garcia. Além das observações colhidas em visitas de campo por Iêda Vilas-Bôas e Zezé Weiss, as fontes consultadas para a produção dos textos desta campanha foram: “Uma História do Povo Kalunga”, organizada por Glória Moura, MEC, 2001; e, “Ser-Tão Kalunga”, André Dib, Seduce/Goiás, 2018.

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