Gratuito e sem fins lucrativos, o Mapa das Máscaras existe há duas semanas e já tem mais de dois mil cadastros

Pouco mais de um mês após as recomendações do Ministério da Saúde para o uso de máscaras em ambientes públicos como forma de prevenção à pandemia do coronavírus, a produção desse tipo de equipamento de proteção entre costureiras e costureiros autônomos cresceu no país. O cenário inspirou um grupo de jovens empresários do Rio Grande do Sul a construir uma plataforma na internet que reunisse e divulgasse a produção desses trabalhadores, de forma gratuita e sem fins lucrativos.

Mapa das Máscaras foi lançado no dia 5 de maio e, em menos de quinze dias, já conta com perfis de mais de dois mil profissionais de todas as regiões do país. A produção diversificada vem de capitais, metrópoles e pequenas cidades. Um dos criadores da ideia, o administrador Guilherme Massena, conta que o crescimento da plataforma surpreendeu a todos.

“Acreditamos que muito em breve teremos cerca de cinco mil profissionais no site e a tendência é só crescer. Já temos relatos de costureiras que fizeram vendas menos de uma hora após colocar o produto no site. Uma empresa usou o Mapa das Máscaras para fazer a aquisição de 15 mil máscaras com costureiras de diversas regiões. Temos vários exemplos super legais de pessoas que realmente estão ganhando, tanto dinheiro quanto trabalho, com a plataforma. Está sendo um projeto muito maior do que imaginamos.”

Já temos relatos de costureiras que fizeram vendas menos de uma hora após colocar o produto no site.

Segundo Massena, os números mais expressivos são de cadastros do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas o impacto da iniciativa já chega a diversas outras cidades. Em Marabá (PA), a costureira Leonilde Santos, de 53 anos, celebra o espírito coletivo da plataforma. Ela costura desde os 19 e é conhecida pelo trabalho na região em que mora. Com a pandemia, viu a demanda por máscaras crescer e iniciou a produção como forma de complemento da renda.

“Eu acho essa iniciativa muito importante. Fico grata, mesmo que tenha muitos clientes aqui na minha região que já me conhecem. Porque você faz o produto, mas se você não tiver quem compre, você não tem como ir em frente. Nós precisamos uns dos outros.”

Você faz o produto, mas se você não tiver quem compre, você não tem como ir em frente.

Aos 24 anos, Gabriela Moreira Narciso, de Guaxupé (MG) também costura desde a adolescência. Ela mantém um ateliê e tem na confecção de roupas e acessórios sua principal fonte de renda. O trabalho com as máscaras começou a partir da percepção de que o produto estava em falta. Com Mapa das Máscaras, ela conta que teve oportunidade até mesmo de manter contato com outras profissionais da área.

“Eu encontrei o Mapa a partir de uma pesquisa sobre doações, materiais, modelos e fiz o cadastro. Depois disso percebi um aumento grande de visualizações nas redes do meu ateliê. Fiz contatos com pessoal de fora e troquei dicas com outras costureiras. A ideia é sensacional e com certeza está ajudando muita gente. É muito útil e muito importante para divulgação de ateliês e de costureiras.”

::Solidariedade do MST busca mostrar que o inimigo, além do vírus, é o capitalismo:: 

Em Brasília, Fátima Gama, que sempre trabalhou com projetos visuais e personalizados, produziu algumas máscaras para a família no início da pandemia. Os amigos viram as fotos nas redes sociais e incentivaram a costureira a fazer os acessórios para venda. As encomendas cresceram e o equipamento de segurança foi adquirido até mesmo pela administração do condomínio onde ela mora, para proteção de todos os trabalhadores do prédio. O Mapa das Máscaras surpreendeu a empreendedora positivamente.

“A ideia de criar uma plataforma gratuita foi fantástica. Foi uma ideia pensando no próximo, em ajudar o outro. Não foi feito para ter um retorno material, mas sim para alcançar vidas.”

Percebi um aumento grande de visualizações nas redes do meu ateliê. Fiz contatos com pessoal de fora e troquei dicas com outras costureiras.

A professora de biologia, Suzana da Silva, mora em Cerro Largo, no Rio Gande do Sul e já tinha uma empresa de venda de produtos personalizados. Com a família, ela trabalha também na produção de alimentos orgânicos. Aos 26 anos, recém-formada e frente à pandemia, Gariela aderiu à produção de máscaras para complemento das atividades. O Mapa das Máscaras foi recomendação de um cliente antigo.

“As entregas e a produção dos orgânicos baixaram bastante, tivemos até que diminuir um pouco a produção. Surgiu essa ideia de fazer as máscaras, e fiz uma parceria com uma colega minha, que está grávida e costura há muito tempo. Depois que me cadastrei, as pessoas começaram a me procurar e as vendas já melhoraram um pouco. A plataforma me auxiliou muito para que eu consiga divulgar o trabalho. Nos ajuda a promover.”

Cooperar em vez de competir

A ideia do Mapa das Máscaras surgiu a partir da Dobra, uma empresa que trabalha com criação de produtos socialmente responsáveis. Produzir os acessórios de proteção era uma possibilidade estudada pela própria companhia, a partir de pedidos de clientes. No entanto, a percepção de que a atividade vinha se tornando única fonte de renda de muitas famílias levou o grupo reavaliar os planos.

A construção do site se concretizou a partir de uma parceria com o movimento Fashion Masks, que conecta pequenas fábricas a consumidores. “Nós refletimos e pensamos que estaríamos competindo com pessoas que estão produzindo em casa a única fonte de renda delas, pessoas que precisam disso para sobreviver. Resolvemos que, em vez de entrar nessa competição, iríamos ligar essas pessoas que estão produzindo às pessoas que estão em busca de máscaras”, argumenta Guilherme Massena.

BDF