Idealizador da ação defende conhecimento como item de primeira necessidade nos territórios marginalizados

“Você aceita um livro?”, pergunta o publicitário Mateus Santana, 28, durante a distribuição de cestas básicas a moradores de uma periferia no Distrito Federal.

Mateus é o idealizador do projeto Bienal da Quebrada, fundado em julho do ano passado com o objetivo de democratizar o acesso à literatura nas favelas do país. Uma das ações, que acontece desde agosto, é a arrecadação e entrega de livros nesses territórios.

Voluntários entregam livros em distribuição de cestas básicas em Recanto das Emas, periferia do Distrito Federal
Voluntários entregam livros em distribuição de cestas básicas em Recanto das Emas, periferia do Distrito Federal – Guilherme Martimon/GRACE – Grupo de Resistência e Ajuda Coletiva de Emergência/Divulgação

Em dez meses, a iniciativa distribuiu mais de 3.000 livros com a ajuda de 60 voluntários em todo o país. As entregas ocorrem, principalmente, no Distrito Federal, em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Ele conta que, ao abordar o morador, sempre faz uma espécie de convite: pergunta se a pessoa também gostaria de receber um livro, já que muitos não têm proximidade com a leitura.

“Quase ninguém nega. A reação é muito legal, porque a gente entrega o livro e a pessoa já pergunta se temos outro que ela possa escolher. A receptividade tem sido muito boa.”

Por enquanto, Mateus entregou 30 livros na cidade Recanto das Emas (DF). Outras distribuições já estão agendadas em Sol Nascente e na Cidade Estrutural, também no Distrito Federal.

Nascido e criado na periferia, o publicitário, o primeiro da família a concluir o ensino superior, defende a importância de estimular os demais moradores a buscar a leitura e o conhecimento.

“O livro também é necessidade básica. O conhecimento formal, da escola, da Academia, já é dificultado para nós. Se não for a gente, que vem desse território, [a estimular a leitura], dificilmente outras pessoas farão”, afirma.

“Foi a partir da leitura que passei a me interessar pela escrita, a fazer faculdade, a estar em espaços públicos discutindo sobre a nossa realidade”, completa.

Para viabilizar a distribuição em outros estados nesse momento de distanciamento social, Mateus repassou 1.300 livros para duas iniciativas do Rio de Janeiro. A ONG Voz das Comunidades receberá mil e o coletivo Favela Vertical, 300.

O Favela Vertical, que atua na Gardênia Azul, zona oeste, irá catalogar os livros e distribuí-los ainda neste mês, junto às cestas básicas. Já a distribuição pelo Voz da Comunidades começará na próxima segunda-feira (18), no Complexo do Alemão, na zona norte. Junto a cada quentinha entregue pelo projeto, o morador também receberá um livro.

O Bienal da Quebrada recebe as doações a partir de contatos nas redes sociais. A pessoa que quer repassar um livro deve informar o estado e a cidade onde se encontra, para que Mateus verifique se existem voluntários no local. Nesse caso, o voluntário vai até o doador e armazena os livros na própria casa ou em depósitos específicos do projeto, até o dia da distribuição.