Com o tema #QuemTemFomeTemPressa: Solidariedade para enfrentar a ausência de governo no Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra realizou, no último dia 8, em sua página no Facebook, um debate com as lideranças de três dos mais atuantes movimentos sociais no Brasil nesse momento de pandemia. Na visão dos debatedores Kelli Mafort, da coordenação nacional do MST, Raimundo Bonfim, da coordenação nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e Izadora Gama, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a situação de calamidade trazida pela pandemia apenas evidencia a incapacidade de Bolsonaro em resolver os problemas da população.

Com uma política neoliberal e um projeto de destruição dos direitos dos trabalhadores, o coronavírus é apenas um agravante da crise que já vinha acontecendo no país. Contabilizados mais de 43 milhões de brasileiros que se encontram fora dos cadastros do governo e não recebem a renda emergencial de R$ 600, as declarações do presidente demonstram total descaso com o povo brasileiro.

Kelli Mafort, do MST, lembra que em entrevista recente, Bolsonaro se referiu aos excluídos,  como ‘invisíveis’. “Para ele, esses brasileiros não existem, mas nós estamos aqui, nessa live e nos movimentos sociais, para dizer que existimos sim.” Ela conta que o MST do Rio Grande Sul organizou uma ação de servir sopa às pessoas que estavam na fila para receber o auxílio do governo. “Dá para perceber o desespero no rosto delas, porque só estão ali por extrema necessidade. Exigimos que Bolsonaro trate com respeito essas pessoas e que a Caixa Econômica pague o auxílio de forma imediata, porque quem tem fome tem pressa.”

A situação no campo– Kelli explica que, no campo, já havia uma crise conduzida pelo monopólio das empresas. Segundo ela, esse monopólio, que abrange tanto a produção, quanto a distribuição dos alimentos, está elevando os preços dos itens da cesta básica. “Os supermercados e grandes redes centralizam essa cadeia e aumentam abusivamente os preços. Dificilmente quem recebe os $RS 600 da renda básica vai conseguir se abastecer”, diz.

A solução pontada pela dirigente, é fortalecer a agricultura familiar, a agricultura camponesa e a reforma agrária, através dos chamados ‘circuitos curtos de comercialização’, ou seja, comprar dos pequenos agricultores e da agricultura familiar.

A situação no Nordeste  – Apesar de o nordeste ser resistência ao governo Bolsonaro e da atuação do Consórcio Nordeste, que tem como meta ações coordenadas de enfrentamento à pandemia entre os governadores da região, Izadora Gama, do MTST de Sergipe, esclarece que a situação não está diferente do restante do Brasil . “As filas para receber a renda básica são gigantescas e o desespero já chegou nas periferias. A gente engole o choro ouvindo os relatos das pessoas de que só estão se alimentando graças às doações dos movimentos sociais. Bolsonaro brinca com o desespero dos brasileiros”, afirma.

Para ela, o aparente descaso do governo é calculado, pois não há razão para os atrasos nos pagamentos da renda básica. “O presidente aposta no caos como parte da implementação de suas medidas. Cabe a nós pensar em um novo mundo e esse novo mundo passa por diminuir a desigualdade social. O neoliberalismo fez muitas promessas, mas o que vemos é retirada de direitos, mais pobreza e mais desigualdade.”

Combate à desigualdade social– Em sua fala, Raimundo Bonfim, da coordenação da CMP, lembra que não é a minoria dos brasileiros que está precisando do auxílio emergencial do governo, outra afirmação de Bolsonaro. Ele esclarece que o número de pessoas que não tem nenhum tipo de renda durante o isolamento pode variar entre 80 a 112 milhões de pessoas, ou seja, mais da metade da população brasileira. “O governo é tão anti-povo que não tem nem mesmo os dados corretos pois, segundo foi divulgado, seriam 54 milhões os que tem direito à renda básica. E até agora a Caixa Econômica Federal pagou apenas 44 milhões de pessoas. Minoria são os banqueiros, e são esses que Bolsonaro  fortalece, os grandes grupos econômicos”, afirma.

Para combater esse projeto neoliberal  e de descaso com as necessidades do povo, Raimundo destaca o trabalho dos movimentos sociais, que estão nas periferias e nas ruas auxiliando aos mais vulneráveis. “Além de levar alimentos, produtos de higiene e limpeza, máscaras e álcool em gel para quem não tem nenhum tipo de auxílio ou renda, também levamos a consciência sobre a necessidade de um outro projeto político para o país.”

Brasil pós pandemia – Na busca de alcançar o Brasil que queremos no pós pandemia, mais justo e mais democrático, na visão de Raimundo Bonfim, é preciso atuar agora. E é no combate à desigualdade social que a sociedade precisar focar. Ele lembra os dados do país, onde seis pessoas possuem a renda de metade dos brasileiros. Em São Paulo, com seus 48 milhões de habitantes, apenas 58 detém a riqueza correspondente a 62% da população.

Os  recursos liberados pelo governo para socorrer empresas, no valor de R$ 1,2 trilhão, vão atender somente aquelas que tem um faturamento anual acima de R$ 300 mil reais. “A grande parte das pequenas e medias empresas, as que garantem os empregos, estão excluídas do acesso a esses recursos.”

Outro ponto levantado por Bonfim é o investimento de apenas 2,7%  do PIB brasileiro no enfrentamento à crise, enquanto outros países tem investido de 10% a 17%.

“É por esses motivos que as frentes Brasil Popular e Povo sem Medo lançaram a campanha e abaixo assinado, “Taxar Fortunas para Salvar Vidas”, porque o futuro passa pela distribuição das riquezas”, diz ele.

Campanhas de Solidariedade – “A solidariedade é da natureza dos movimentos sociais” lembra Kelli Mafort. Ela diz que, apesar das dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores do campo e agravadas com a ausência de políticas públicas, eles entenderam a necessidade de auxiliar as pessoas das cidades nesse momento. “Mas quando a gente se depara com as panelas vazias, nossa solidariedade é, também, uma ação política’, diz ela

A Rede Periferia Viva, que atua nos bairros mais periféricos e o projeto Marmitas Solidárias, que leva comida quentinha para moradores de rua e estrangeiros em vulnerabilidade, também são ações do MST.  O Movimento já doou cerca de 600 toneladas de alimentos agroecológicos em 25 Estados.

A CMP e suas 1500 entidades filiadas arrecadou e distribuiu, até agora, mais de 1200 toneladas de alimentos e 63 mil cestas básicas. Na campanha Movimentos contra a Covida 19, a Central disponibiliza alternativas para quem quer fazer doações ou participar de alguma ação de solidariedade.

O MTST  já atendeu mais de 10 mil famílias em 11 Estados, com a doação de 112 toneladas de alimentos, kits de higiene e máscaras.

Todos esse movimentos populares integram a campanha Vamos Precisar de Todo Mundo, que disponibiliza, em seu site todomundo.org, as opções para fazer doações, cadastrar uma iniciativa solidária ou solicitar ajuda.

O debate foi mediado por Ana Flávia Marques, da Frente Brasil Popular.

Assista à live na íntegra AQUI