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“A gente conhece as pessoas nos limites da dor, do medo e da felicidade”, disse o músico de Curitiba, Ulisses Galetto.

O que vale para as pessoas, vale também para a ação coletiva, para os movimentos sociais, para as instituições, para os governos.

É bem esclarecedor perceber como cada um desses atores se manifesta e age diante de uma crise de proporções apocalípticas como a da pandemia do coronavírus.

Inúmeras instituições estão fazendo a sua parte, mas o atual governo brasileiro, longe de surpreender alguém com isso, só evidencia em suas ações e a todo momento o quanto o povo pobre encontra-se desprotegido, abandonado, fragilizado e ameaçado de morte no que depender da sua ajuda ou, no mínimo, da sua responsabilidade.

O novo ministro da Saúde, no melhor estilo de “o dono da funerária” ou “Doutor Morte”, assume o cargo com discurso de fazer a gestão da saúde pública norteado por uma espécie de “escolha de Sofia” sobre quem salvar ou a quem garantir um respirador quando chegarem duas pessoas necessitando desse único aparelho para sobreviver: se para um idoso ou um adolescente?

Já chega eximindo-se de sua principal missão, que deveria ser a de trabalhar para salvar a vida de todos.

As redes sociais explodem imediatamente em questionamentos: idoso rico ou adolescente pobre?

Idoso banqueiro, empresário, branco ou adolescente desempregado, favelado e negro?

Homem, mulher, índio, homossexual, morador de rua… Eis as questões próprias da nossa sociedade desigual e discriminatória.

É nesse contexto que países pediram aos seus cidadãos que deixassem o Brasil e fossem se proteger, e, caso seja preciso, se tratar nos seus países de origem, onde se a coisa não está às mil maravilhas, está mais séria e responsavelmente administrada do que aqui.

Nesse contexto vexatório pra gente também, a Argentina cerrou suas fronteiras com o Brasil, com vigilância reforçada da polícia local e do exército argentino, e o noticiário de lá tem constantemente explorado as bizarrices e ataques de ignorância do Bolsonaro, a fim de mostrar os perigos de não manter a necessária distância desse vizinho insano e ensandecido.

Voltando à frase do Ulisses, é nesse contexto ainda, de abandono e desproteção da população mais empobrecida, que a sociedade brasileira percebe o sentido da solidariedade e, mais do que isso, do compromisso verdadeiro com a defesa da vida e o socorro à população.

O valor da reforma agrária! Ao longo da história da humanidade, a luta pela terra sempre esteve associada às edificações de valores humanos e, em pouco mais de dois mil anos para cá, também de fundamentos cristãos.

Porque foram dos conflitos e consequentemente dos massacres mais sangrentos e impiedosos dos poderes instituídos sobre as massas de trabalhadores, de pessoas humildes, enfim, do conjunto desses sofrimentos e injustiças, que se manifestaram também ou foram reforçados e fizeram ainda mais sentido o amor ao próximo, a partilha, a fraternidade.

Repartir a terra, essa fonte geradora de alimentos, desde os idos da Antiguidade pelo menos, é sinônimo de semeadura e garantia de vida.

Todo ano, no mês de abril, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promove ações, mobilizações, celebrações, atividades formativas e de conscientização para dar visibilidade à luta pelo pedaço de chão.

Especialmente, o dia 17 de abril é o dia nacional de luta pela reforma agrária, em memória aos 21 sem terra assassinados pela Polícia Militar do Pará em Eldorado de Carajás no ano de 1996, quando marchavam em direção à capital do estado, Belém, para clamar por terra e trabalho. Foram metralhados. Além dos mortos, contou-se inúmeras pessoas mutiladas por essa barbárie.

Essas 21 lideranças do MST não estão mais aqui fisicamente, mas o que defendiam, os frutos de uma terra que, a partir do trabalho dessas famílias, produza alimentos saudáveis estão chegando a quem mais precisa.

Este ano, em meio à pandemia do coronavírus e todas as suas implicações econômicas e sociais que atingem mais violentamente o povo pobre, a principal ação do MST é repartir a comida produzida para a sobrevivência nas comunidades da reforma agrária. Emocionante!

Só no Paraná, foram mais de 45 toneladas de alimentos, arrecadados junto a 10 mil famílias assentadas ou acampadas no estado.

Cada uma dessas famílias doou um pouco do que produziu para que esse alimento chegasse às periferias das grandes cidades, até aquela pessoa que perdeu emprego, oportunidade de trabalho informal e que não tem como sobreviver à crise do isolamento e cuja baixa imunidade embutida nesses abandono e desproteção a torna um alvo ainda mais fácil para a COVID-19.

O MST não descuida também da preocupação com as populações indígenas, das comunidades tradicionais mais isoladas no interior e com a população de rua.

Para estas, a comida produzida na terra solidária é preparada em marmitas quentinhas, que vão alimentar quem vive nas ruas e encara a chegada do frio nas calçadas e praças.

Em Curitiba, mais de 500 “quentinhas” foram distribuídas nas praças Tiradentes e Rui Barbosa pela ação do MST.

Outros destinos desses alimentos foram: hospitais, asilos, entidades assistenciais em menos de uma semana de intensa mobilização.

O mesmo MST do Paraná demonizado por setores que se negam a prestar socorro para a população e que vive sob a ameaça constante de mais de 160 ações de despejo em suas comunidades, que enfrenta o desrespeito sistemático de governos temerosos ou comprometidos com interesses contrários à igualdade social, é quem demonstra toda sua generosidade e razão de existir ao socorrer a população mais pobre e necessitada do estado.

Porque se for só esperar ou depender de governantes, os pobres morrerão de fome ou da doença.

Esses governos têm de reconhecer a importância dos movimentos sociais para o bom funcionamento da nossa sociedade, para suprir as deficiências do seu próprio trabalho de gestão pública, e a grandeza da produção de alimentos saudáveis pelas mãos da agricultura familiar, da reforma agrária e dos pequenos agricultores brasileiros.

Estes seguimentos produtivos podem não ser os financiadores das campanhas eleitorais dos gestores, mas são quem no dia a dia promove o bem estar social, amenizando e diminuindo a sobrecarga de atendimentos e de problemas sobre a máquina pública.

A solução trazida pelo movimento social não é cara aos governos, mas todo apoio e o respeito oportunizados se multiplicam na sociedade imediatamente em forma de bem estar social.

Enquanto a agricultura familiar e a camponesa produzem o alimento para a mesa e a barriga do povo brasileiro, o agronegócio produz commodities.

Os governos sabem dessa diferença e sabem que é burrice priorizar o interesse menor, individual, em detrimento do coletivo. O equilíbrio – em condições de equidade e com olhar para a escala de resultados sociais concretos – seria o ideal, matemática e politicamente falando.

O povo pobre do campo cuidando do povo pobre das cidades

Foto: Joka Madruga / Terra Sem Males / MST Paraná

As nove ações de despejo ocorridas no Paraná no ano passado, sobre áreas com 10, 15, 20 anos de trabalho, verdadeiras comunidades instituídas (com escolas, inclusive), retiraram 500 famílias da produção de alimentos em pequenas parcelas de chão, que foram abandonadas de supetão (e por omissões diversas) à própria sorte.

Eram 500 famílias que, com certeza, separariam hoje uma saca de feijão ou de milho, entre três colhidas, para ajudarem a alimentar os famintos das cidades ou doentes nos hospitais.

Vale lembrar que todas essas áreas ameaçadas de despejo – suspenso por enquanto, em meio às primeiras medidas e cuidados adotados pelo Tribunal de Justiça do Paraná nesta pandemia – são referentes a casos solucionáveis com diálogo e não com repressão.

Ou são de áreas com pendências, dívidas junto à União e ao estado ou, ainda, pertencentes a proprietários que já manifestaram anteriormente a intenção de vendê-las e cujos processos estavam em andamento no Incra até a imbecilidade e a intolerância se assentarem no governo federal.

Tanto que mesmo governos estaduais anteriores, que também representam os interesses da oligarquia paranaense e das elites econômicas daqui, assumiram o compromisso de resolver esses conflitos não a pontapés e balas, mas com diálogo e sob critérios técnicos, analíticos, adequados para cada situação, além de critérios socialmente justos.

Não sei de onde surgiu o termo “toneladas de solidariedade”, apropriado das postagens em redes sociais de divulgação das doações de alimentos feitas pelo MST no Paraná e no Brasil.

Mas define com precisão o valor dessa generosidade ou mesmo dever, digamos assim, assumido espontaneamente por essas famílias da reforma agrária.

Para completar a demonstração do discernimento e consciência da militância dos trabalhadores sem terra, vale se atentar para outros cuidados, medidas e perspectivas bem pé no chão, expressas pelo coordenador estadual do Movimento, Roberto Baggio, em entrevista para o programa “Inteligência Acima da Mídia”, na última sexta-feira, dia 17 de abril de 2020 (assista no topo).

Baggio elenca as recomendações do MST para as famílias nas comunidades de reforma agrária no Paraná, junto com o desejo de que nenhum militante e família sem terra adoeçam ou venham a perder a vida para a COVID-19:

*se resguarde, se proteja em casa, no seu local de abrigo;

*evite receber visitas nesse momento;

*cuide do vizinho;

*ajude a monitorar a saúde das pessoas próximas; e

* quando precisar, se envolva nas ações de solidariedade.

Cuide da terra e da água, plante as lavouras de inverno e faça a colheita.

“Prepare-se, pois vamos precisar de muita comida no segundo semestre do ano também”, disse.

O MST incentiva as famílias da reforma agrária a manterem hortas para sua subsistência e também hortas coletivas que, num primeiro momento, abastecerão escolas e hospitais próximos.

Futuramente, serão os frutos desses plantios de agora que chegarão até a população carente dos grandes centros urbanos, como foi feito neste mês de abril para celebrar o legado histórico de quem deu a vida na luta pela terra.

Baggio sabe que se o pobre adoecer ou passar fome, ele morre. No Brasil inteiro, são perto de 150 milhões de pessoas nessas condições de insegurança alimentar e financeira, antes mesmo dos riscos embutidos na pandemia do coronavírus.

Repartir a terra desde sempre foi sinônimo de justiça social.

Porque se o primeiro sentido da reforma agrária é o de produzir comida, a consequência direta disso é matar a fome do povo.

As ações solidárias do MST desenharam para a população, na semana que passou e ao longo do mês de abril especialmente, o valor da luta popular e da vida em comunidade.

Essa é a verdade manifesta pelas famílias sem terra na dor da pandemia que aflige o nosso povo.

Só temos uma palavra a dizer em resposta para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra: gratidão!

*Thea Tavares é jornalista em Curitiba.

Joka Madruga é fotojornalista em Curitiba; é responsável pelo blog Terra Sem Males

Viomundo